maio, 2008 Archives

14
mai

On Socialism

by mauro in Uncategorized

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“Socialism in not just a question of labor organization; it is above all an atheistic phenomenon, the modern manifestation of atheism, one more tower of Babel, built without God, not in order to reach out toward heaven from earth, but to bring heaven down to earth.”

12
mai

Wunderbar.

by mauro in Uncategorized

Eu nem tenho coragem de dizer que acabou (no fundo não acabou, né).

Não chego a sentir nostalgia, porque afinal só os conheci há três anos, quando a fase mais eufórica deles já havia passado.

Mas li coisas inesquecíveis e vi brigas boas, muito boas e muito divertidas. Fiz comentários com um ar de fã que eu nem sabia que ainda carregava nos meus já velhuscos pulmõezinhos. Comprei (e li) o livro mostarda, as Festas do FDR e a Coisa não-Deus. Fui no lançamento d’ “A Visita“. Fui até em palestra na Livraria da Vila, ver o Alexandre falar mal de blogueiras cinqüentonas e bocas-sujas, do lado de uma blogueira cinqüentona e boca-suja, que não entendeu lhufas.

E, obviamente, só compreendi a Função Social do Blog ao lê-los.

Daí, pretensioso como só, abri este botequim que acabou vindo parar – até hoje não sei como – no meio dos Apostos, que já abrigavam um deles, recebeu mais dois há pouco, e agora outros dois: o César (cuja inteligência alegre me lembra um pouco o Leon Eliachar) e o Alexandre (responsável pela existência, neste mundo, do P. G. Wodehouse e do Rex Stout, inter alia).

Os Apostos, eu já disse aí embaixo, só fazemos conspirações por e-mail, de mod’s que, salvo o gentilíssimo Matamoros, não conheço, pessoalmente, nenhum dos outros. Não vai aqui nenhuma sacanáj, mas é mais ou menos como se fosse um daqueles namoros platônicos, em que a gente adia as, err, fases finais, com medo de estragar tudo. Para falar a verdade, a gente vive marcando encontros, só para não ir a eles.

Talvez esteja aí o segredo de nossa futura (e inevitável, inevitável!) longevidade (eternidade!) – se não nos conhecemos, achamos que somos todos muito mais inteligentes e bacaninhas do que realmente somos (ou, pelo menos, do que eu sou, né). Ou talvez esteja no fato de que já somos (quase) todos madurinhos e temos empregos e responsabilidades, por isso não vamos largar o blog para pegar num trampo, nem vamos fazer o Alexandre rebolar mais.

Enfim, agradeço a Santispidito a graça alcançada, estendo meus trapinhos vermelhos sob os nobres pés dos novos membros (epa, opa) que adentram este portal e juro que no próximo encontro, eu também não vou.

9
mai

IML.

by mauro in Uncategorized

I, II , III e IV:

A primeira coisa que faço ao acordar é pegar o jornal que o porteiro deposita no meu capacho. Minha sonolenta consciência me leva da cama à porta da área de serviço, sempre com as boxers e apenas com elas. Seja o que Deus quiser – as aeromoças que moram na porta em frente podem se divertir com o meu despenteado matinal, ou podem – há gosto para tudo – fantasiar com o meu torso nu, que não é mais o mesmo, mas ainda dá algum orgulho.

Não naquela manhã, porém: saí da cama com esforço muito acima da média nacional (é muito, pode apostar) e, ao invés de ir exibir-me ao olho mágico das vizinhas, fui direto ao terraço, acender um cigarro.

Depois, enfiei uma bermuda e uma camiseta e fui pegar o jornal, ciente de que procuraria a notícia definitiva. Abri o caderno “Cidades” ainda com a porta aberta, de pé, descalço sobre o capacho. Estava lá, era uma notinha apenas. E não era exatamente definitiva.

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Meu impulso inicial foi desistir da história toda. Afinal, vi a moça uma vez só, não levei prejuízo, e não havia nenhuma possibilidade de cobrar de alguém alguma ação judicial qualquer. Mas o dia me reservava uma reunião com o síndico do prédio do meu escritório – a segunda coisa mais aborrecida do planeta, só perdendo para reuniões com todos os condôminos. Ou isso, ou eu começava a acreditar em amor à primeira vista.

Mas uma das aeromoças abria a porta, puxando a sua maleta com rodinhas. O sorriso veio mais aberto que aqueles reservados aos passageiros da classe turística – sinal que meu torso ainda causava alguma simpatia. Mas dei bom-dia e entrei, sem esperar que o elevador chegasse. O sisal do capacho já fazia furinhos na minha sola nua.

Avisei a Diva que só apareceria depois do almoço e pedi para ela cancelar a reunião com o síndico. As respostas monossilábicas e tônicas, junto com a batida forte do gancho, não disfarçaram o seu estado de espírito, e eu pensei que talvez nem depois do almoço daria as caras.

Liguei também para o James, que me deu a ficha:- É do Andrade, um mau-caráter, titular da 34.- Mau-caráter por quê?- Você está no celular?- Não, no fixo, de casa.- Você continua ingênuo, né? Me paga um jantar no Gero que eu te conto.- Morro curioso. Mas me diz se posso falar no teu nome.- O mau-caráter não sou eu.

Se era mesmo mau-caráter, não pareceu, ao menos à primeira vista. Mau caráter, ou pelo menos mal-educado, foi o investigador que, depois de pegar o cartão de visitas que lhe entreguei na entrada do corredor, me levou até a sala do Roberval e, sem tirar o palito da boca, me apresentou com o dedão:

- Doutor Jorge, o menino aí vem lá do James.- Tá, brigado, Valentim. Pode sair.- O cara usa palito na boca antes do almoço?- É prevenido. Como posso lhe ajudar, doutor… – checou o cartãozinho – doutor Oliveira?

Não era o meu cartão de visitas, claro. E o cartão do Oliveira só dizia “Juiz de Direito”, não dizia a vara, nem o endereço.

- Essa moça, que acharam hoje nos canteiros da Marginal. Já identificaram?

- Ainda, não. Mas que linda, Oliveira, que linda. Posso te chamar de Oliveira? Então, nunca vi mulher morta mais linda na minha vida. E olhe que estou nisto há uns dez anos. O pessoal do IML deve estar fazendo a festa. Era parente sua?

- Nã…não, não. É que a filha de um conhecido do meu pai sumiu ontem à noite, e ele achou…

- Ora, mande ele vir aqui, então. Melhor: porque já não leva o cara direto ao IML, para reconhecimento?- Ninguém ainda reclamou o corpo?

- Nah. Aqui, só apareceu um playbozinho, ontem de madrugada, dizendo que achava que era a mulher dele. Mandei o cara para lá, mas acho que não deu em nada, porque ninguém me ligou. Pera aí.

Ligou para o IML, conferindo o número embaixo do tampo de vidro da escrivaninha. Ninguém tinha ido lá, ver o corpo. Ele avisou que estava mandando alguém, para atenderem rápido, que era da chefia. Disse-me para procurar o Guaracy. Agradeci e saí sem saber por que o James julgava tão mau o caráter o Andrade.

O Guaracy era um desses caras que de olhar você sabe que parecem muito mais novos do que de fato são. O rosto cor de cobre, não se sabe se de sol ou se de raça, e os cabelos brancos indicavam mais de sessenta, mas muito vigorosos sessenta. Apertou minha mão com força de vinte, olhando nos meus olhos e sorrindo com dentes que decerto tinham visto um tubo de Corega há poucos minutos.

Guiou-me pelos corredores do IML que, fora as mesinhas de alumínio, não tem nada a ver com os morgues de filme americano – há um burburinho, um entra-e-sai, uma displicência, que fazem você esquecer que aquelas portas cinzas escondem cadáveres e mais cadáveres, a maioria deles de mortes violentas. Todo aquele movimento deve facilitar a venda das hipófises, maldei para mim mesmo.

O Guaracy, sem parar de andar, abriu com o ombro uma porta de vai-e-vem e entramos numa sala esbranquiçada por lâmpadas fluorescentes, com pelo menos dez daquelas mesas de alumínio, todas com moradores abertos. Não sei o que eu esperava encontrar ali, mas o choque foi tão grande que eu voltei pela porta de vai-e-vem, segurando o queixo e a boca.

- Não posso trazer para o corredor, seu juiz. O senhor vai ter que entrar, para ver a moça.

Fiz que sim com a cabeça e espalmei a mão no ar, para ele esperar um pouco. Ele olhou para os lados, enfiou a mão no bolso. Tomei coragem e ar:

- Vamos.

E fomos. Segui-o de olhos baixos, mirando seus calcanhares. Quando parou, parei. Vi primeiro as roupas, empilhadas no pé da mesa – vestido preto, confere; meias de náilon com costura, confere; sapatos baixos, confere. Mas o corpo não era o dela. Ou era. Ou não era. Era. O rosto estava mole, amarelado, com hematomas feios. E não consegui olhar o corpo, que, de qualquer modo, eu não reconheceria. Mas era ela.

Senti que o Guaracy me olhava. Dei as costas e caí fora. Sem ele à minha frente, tive que seguir de pescoço em pé e a roxidão dos corpos se misturou ao cheiro horrível do local (não era só formol), fazendo um bolo na minha garganta. Mas não vomitei. O Guaracy, já perto de mim de novo, perguntava se eu estava bem e sorria com a sua dentadura seca.

Não havia um maldito bar por perto. O dia tinha esfriado. Acendi um cigarro e ofereci o maço ao Guaracy, que pegou dois cigarros, agradeceu, deu tapinhas no meu ombro, e foi embora, enquanto eu girava a chave na porta do velho Citroën.

As primeiras gotas da garoa matinal já ajuntavam poeira no pára-brisa. E eu achei natural que o CD-player escolhesse aquela faixa. Funny how love becomes a cold rainy day. Funny – that rainy day is here.