agosto, 2009 Archives

12
ago

Corpore Insano.

by mauro in Uncategorized

42-15862487.jpg“Run, Fatso, run!”

Venho tentando me impedir de escrever sobre o hábito de correr, que adquiri tardiamente e venho exercendo com invejada regularidade, a despeito da heróica resistência da minha preguiça.

É que todos os que escrevem sobre esse assunto, além de terem sido alfabetizados recentemente, acabam falando dos seus recordes pessoais, da sua satisfação pessoal, do seu bem-estar, de como eles são rápidos ou (e/ou!) resistentes, o que acaba fazendo com que você se sinta como uma anta flácida e preguiçosa, que deveria estar correndo, ao invés de estar com o farto popô na cadeira, vendo bobagens na internet.

Mas ocorre que eu peguei uma mania de me inscrever em corridas de rua, que é uma maneira de pagar para correr e fazer com que o judeu (leia árabe se for judeu, e vice-versa, por favor; se for judeu-árabe, leia armênio), que coabita este organismo, me faça ir correr para não perder a grana da matrícula.

E no domingo corríamos todos – eu e mais umas vinte mil pessoas – pelo Centro Histórico, quando me senti profundamente desestimulado, talvez pelo excesso de falta de sono dos últimos dias, talvez pelos mais de quarenta anos que acompanham este velho bio-espaço, talvez pela terrível visão de uma ladeira montanhosamente íngreme do lado do Viaduto Santa Ifigênia, talvez porque o judeu (ou árabe, ou armênio) tenha decidido ficar sentado, enquanto eu carregava os dois (ele e eu) ladeira acima.

Mas, ei!, pouco à frente, pela calçada e no contra-fluxo da corrida, vinha, animadíssimo, com uniforme patrocinado por restaurante e tudo, um risonho rapazinho com necessidades especiais, bastante parecido com o Guga, nos cabelos cacheados, na magreza e na capacidade de expressão verbal. Tentava dar high fives que os atletas olimpicamente desprezavam.

Como sou um homem acostumado à diversidade, compreensivo, tolerante e me comprazo com pessoas que encontram esses estímulos vitais para superar as mais cruéis dificuldades – e digo tudo isso sem um pingo de ironia – mas enfim, como sou bacaninha, ensaiei, desde longe, um atlético high five, com o qual não só incentivaria o rapaz, como também ganharia a ofegante admiração de meus pares: não só eu seria um cara batuta, mas ainda demonstraria a capacidade de levantar o braço, depois de tudo o que já corrêramos (estávamos, creio, na metade do terceiro quilômetro do percurso, que ia até nove).

Vaidade das vaidades, diz o Eclesiastes, vaidade das vaidades! Tudo é vaidade. A glória vã que eu já imaginava pela atitude de fair play, dependia do destino, da conjunção dos astros, da intervenção divina e, claro, da atenção daquele fatídico portador de necessidades especiais. Uma das necessidades especiais dele, descobri naquele instante, é manter a concentração, porque justo no momento em que me aproximava, ele se encantou com uma moça que saltitava à minha frente, baixou o braço e virou o rosto, encantado por aqueles movimentos glúteos de rara cadência.

Ainda tentei gritar, alguma coisa, mas o fôlego falto só permitiu um “oieuffff”, incapaz de reclamar a atenção do hiperativo rapagote. Não sei se pelo excesso de velocidade, ou se por absoluto descontrole muscular, mas decerto contra as minhas mais profundas convicções, a minha potente manopla direita, que já estava além de qualquer possibilidade de retorno, passou no vazio deixado pela mão do distraído deficiente e explodiu uma formidável bolacha naquele dentucíssimo perfil. Se ele já não entendia muito da vida, decerto contribui, com aquele desastrado cumprimento, para que ele ficasse um pouco mais desorientado, por pelo menos quinze minutos.

Tamanha foi a força do golpe, que eu cheguei a ver os voejantes cachinhos capilares e algumas babinhas brancas percorrerem em câmara lenta o céu de inverno, até que o rapaz desabou, acertando a guia do viaduto com a nádega direita, antes de rebotear e acabar esparramado no meio da pista, onde foi amparado por uma gordota suada que eu acabava de ultrapassar.

Todos os corredores à minha volta, talvez ensimesmados pela concentração inumana que a corrida exigia, talvez prestando atenção aos seus Polares e Garmins, talvez por força do notório desprezo paulistano, passaram sem um gesto qualquer – era como se nada tivesse acontecido.

Só a obesa atleta percebeu minha involuntária agressão – mas, o seu olhar através da franja e o brutal arfar de suas róseas bochechas, me disseram que eu já havia sido processado, julgado e condenado. E não por agressão culposa (o que abrigaria, segundo os cânones do Direito Civil, a imperícia do movimento do meu braço, a negligência do meu ombro cansado e a imprudência de minha alegria endorfinada). Naqueles olhos apertados eu via escrita a sentença: dolo.

Pareceu-me melhor retomar a corrida, e com mais eficiência: os paramédicos já cuidavam do abilolado rapaz e – posso jurar – ouvi os tênis da gorducha cantarem pneu na arrancada. Vinha, claro, no meu encalço. E com uma sede de vingança que nenhum dos três postos de hidratação, oportunamente alocados ao longo do percurso, seria capaz de arrefecer.

Percorremos os cinco quilômetros e meio faltantes numa média de velocidade que daria inveja a qualquer jamaicano na China. A minha rechonchuda perseguidora tinha uma capacidade pulmonar proporcional ao seu diâmetro. Quanto a mim, Virgílio já previa – o medo, aos pés, lhes empresta asas. Corri como o semi-homem Caco, com aquele adiposo Hércules feminino nos meus calcanhares. Quebrei todos os meus recordes (e, provavelmente, o osso do artelho médio do meu pé esquerdo).

Passamos pelo portal da chegada e eu, já pavlovianamente condicionado, apertei o stop do cronômetro e reduzi a marcha para uma saudável caminhada de desaquecimento. Só registrei que deveria ter continuado a correr quando senti dois braços fofinhos e curtos, mas fortes como os de um Tiranossauro Rex, agarrarem meus rins, meu fígado e meu baço e me levarem ao chão. A gordota, meu Deus.

Quando consegui me virar no asfalto e encarar minha algoz, só consegui dizer-lhe, apontando para o espantado cronômetro do meu pulso: “Quarenta e dois e vinte! Fizemos em quarenta e dois e vinte”! Ela removeu o cotovelo do meu esterno, desfez o punho e conferiu o próprio cronômetro. Empurrou-me com as duas mãos de volta para o chão e atarrachou, aos meus desprevenidos lábios, o beijo mais suado que já recebi em toda a minha atlética vida.