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| setembro 2006 »
agosto 23, 2006
Oportunismo.

“I just want you to know where I stand. I appreciate a joke, but underneath I’m a s-s-serious person. Proud to be an American. That’s why I’m sorry about José”. She put down her knitting needles. “You do think he’s terribly good-looking, don’t you?” Holly said Hmn, and swiped the cat’s whiskers with her lacquer brush. “If only I could get used to the idea of marrying a Brazilian. And being a B-b-brazilian myself. It’s such a canyon to cross. Six thousand miles, not knowing the language–”
“Go to Berlitz.”
“Why on earth would they be teaching P-p-portuguese? It isn’t as though anyone spoke it. No, my only chance is to try and make José forget politics and became an American. It’s such a useless thing for a man to want to be: the p-p-president of Brazil.”
agosto 20, 2006
Notinhas tristes.
Napoleão Mendes de Almeida.
Falei, pelo telefone, com a filha dele,que manteve o curso (de Português, por correspondência) por cerca de oito anos, depois da morte do pai. Agora, acabou; também ela entregou os pontos. Os conservadores estamos levando um Bagno.
Luis Fernando Veríssimo.
As suas novas crônicas parecem, cada vez mais, com aqueles textos que antes vinham assinados em seu nome, pelo e-mail. Triste, triste.
Victor Brecheret.
Foi assassinado aos poucos. Primeiro, por chamarem sua maior obra de “estalta do empurra-empurra”. Agora, permitem que a plebe ignara empoleire-se na cabeça dos índios e dos Bandeirantes (sim, com maiúscula), numa interatividade politicamente correta e, naturalmente, destrutiva.

agosto 17, 2006
Estou defendendo.
Confesso: fui, até agora, vítima da feroz e maciça campanha da mídia subversiva e cooptada, escrava de interesses inconfessados. Alinhei-me, inocente útil, ao discurso pré-fabricado, de provável origem gramsciana. Acreditava, mesmo, que tudo não passava de mais uma tentativa colonialista dos ianques, para nos roubar o pouco que temos de identidade cultural. Mas estou me corrigindo a tempo, espero.
Deixem-me explicar.
No fundo, eu tinha mais razões que todo mundo, para ter ódio: além de interromperem meus raros momentos de lazer com apelos e ofertas inúteis; além de agüentá-los tentando me vender um celular novo, abrir uma conta num banco qualquer, ou me fazer render meus pontos de cartão de crédito a uma entidade beneficente desconhecida; além dessa chateação rotineira que já me impunham, eu era – e sou – obrigado a aturá-los nos elevadores do prédio do escritório.
E, como se já não tivessem tagarelado o dia inteiro, andares e andares de universitários que estudam em siglas irreconhecíveis, saem, toda a noite, berrando e rindo pelos corredores do prédio, entupindo os elevadores além da carga, apertando os botões de subir e descer (quando só querem descer), segurando a porta para esperar colegas, sendo, enfim, ainda mais desagradáveis em pessoa que pelo telefone.
Por isso – e dados os meus pendores puristas – eu estava arquicredenciado para abominar o gerundismo, que é a língua oficial desses operadores de telemárquete. E não fazia por menos: dizia, nas rodinhas, que esse povo não passa dos basic-ones nas escolinhas de inglês por aí, e acaba incorporando o present continuous na linguagem, como se fosse uma coisa fina e correta.
Mas estou me arrependendo, ah, como estou me arrependendo.
Noite dessas, saía eu, livro em punho, cenho franzido (eu franzo o cenho como poucos), fingindo que nada escutava. E duas moças entraram no elevador.
- Hoje está sendo difícil – falou a de cabelinhos descoloridos e piercings nasal e na sombrancelha.
- Que está acontecendo? – perguntou a negra com tranças coladas no couro cabeludo e calça pequena o suficiente para fazer saltar dois pãezinhos escuros em cada lado da cintura, sob a blusa curta.
- Eu dizendo para o cidadão que ele tinha crédito aprovado pelo Banco Pum, e ele berrando que eu sou ignorante, que não tenho estudo, que faço uma faculdade ridícula, que sou uma besta, e só por isso aceitava trabalhar com telemárquete – ela disse isso já segurando o choro que sairia mais tarde na cama, com soluços bem fortes, de adolescente. (O nome do banco é fictício).
- E o que você disse?
- Ora, que disse... Disse “nossa conversa pode estar sendo gravada para a sua segurança, senhor. Posso estar ajudando em mais alguma coisa, senhor?”. Aí ele me mandou tomar no... – momento em que a porta do elevador abriu e fomos depositados no térreo.
Pois, querem saber, daquela noite em diante, estou vendo as coisas de outro modo. O gerundismo não é um vício de linguagem – é a suavização de uma súplica. É um pedido de desculpas, em forma de locução verbal. E traz, também, uma mensagem cifrada: tudo aquilo que a pessoa está te dizendo, não passa de uma suposição, um papo de que ela mesma duvida. Nada ali é definitivo – agora você pode estar trocando de operadora e pode estar levando vantagem. Mas quem sabe? Talvez você esteja se ferrando!
No fundo, o gerundismo é a culpa de estar ali, falando aquelas bobagens imensas, sem poder estar estando em outro lugar, sem poder estar fazendo outra coisa. O gerundismo é a consciência dos incômodos a que a vida nos obriga a levar aos outros.
Por isso, mudei: estou agora defendendo o gerundismo, como o último – e mais delicado – sinal de gentileza, nesta terra bruta.
agosto 15, 2006
Burguesinho, I.
A estréia na casa nova e os exageros dos amigos impõem mais um postinho, rápido. Aos desavisados, informo: tenho uma mania besta de escrever umas estórias de pouquinho em pouquinho, e já ir postando, na medida em que saem, mesmo. Com isso, me obrigo a escrever a estória inteira e prendo, com um vil truque janetecleriano, a sua audiência.
A única coisa que prometo é que um dia, acabo a estória. Como e quando, não revelo, porque nem eu sei. E aceito (melhor, suplico) comentários e palpites.
Tomem a parte um, e leiam por conta e risco. Eu avisei.
Burguesinho, I.
Dona Sônia era uma mulher jovem, sempre bronzeada, cujos óculos, obedientes à moda daqueles dias de 1976, iam muito além do rosto. Dava aulas de História para o ginásio, no colégio de freiras salesianas e, todos diziam, era namorada da Dona Elisabete, que mapeava uma desnorteante Geografia para os meus hormônios pré-adolescentes
As aulas, claro, hipnotizavam – além de todo o charme das ousadas calças ranchero da Dona Sônia, havia aquele mistério todo de namoro e, caramba, de duas mulheres!
Assim boquiaberto, com os poucos meninos e as muitas meninas daquela sala de aula no Belenzinho, ouvi a Dona Sônia dizer que, na Idade Média, as pessoas ou eram nobres, ou clérigos, ou burgueses, ou artesões, ou camponeses.
Mas uma covinha, na bochecha esquerda dela, sorriu, levemente debochada: “vocês seriam todos filhos de burgueses, burguesinhos”.
Era a primeira vez que ouvia “burguesinho”, mas lembro de ter ficado com as orelhas quentes, sangüíneas – “burguesinho, o cacete”, pensei, boca suja que era, até em pensamento.
A descrição que ela fez dos burgueses – bestalhões que não queriam nada com o trabalho, aproveitadores da canga no lombo dos artesãos e do campônios, folgadões, atravessadores do esforço alheio – transformou os seus filhos em gordinhos maricas. Para quem tem onze anos, não há ofensa maior.
Se ela achava que eu era um gordinho maricas, o meu espírito, não: por dentro, era um esguio e mandão aristocrata, de espada afiada e atitudes nobres. Às vezes, também um musculoso e rude camponês, de clava forte e que não fugia à luta.
A Dona Sônia ia ver só. Burguesinho, o cacete.
agosto 14, 2006
Perguntas.
1. O que se deve fazer em caso de seqüestro? Pagar o resgate ou chamar a polícia?
2. Quem era o advogado do Norambuena?
3. O que uma coisa tem a ver com a outra?
4. Não é mais legal ouvir o discurso do Governo na boca do autor?

Ah, e 5. Que raios ainda estamos fazendo aqui?
agosto 09, 2006
And here he is, direct from the bar...
Queria uma entrada triunfal, aqui nos Apostos. Pensei em caprichar numa estorinha, que já estou começando, vejam só:
“Dona Sônia era uma mulher jovem, sempre bronzeada, cujos óculos, obedientes à moda daqueles dias de 1976, pareciam maiores que o rosto. Dava aulas de História para o ginásio, naquele colégio de freiras salesianas e, todos diziam, era namorada da Dona Elisabete, que mapeava uma desnorteante Geografia para os meus hormônios pré-adolescentes.”
Mas não, não. Deixa isso para depois. Queria algo com mais humor e mais classe. Algo assim:
And here he is, the star of our show, direct from the bar, Dean Martin!
Primeiro, clique aqui, e eu salto na sua tela.
Agora, precisamos de música. Clique logo abaixo, e uma página do "rapidshare" vai abrir. Vá até a parte final, no canto direito e clique "free". Espere a contagem regressiva. Na nova tela, digite o código que aparece. Escolha "salvar". Quando abrir a janelinha, volte o browser, até chegar aqui de novo. Pronto.
Aqui! Aqui!
O lugar é bacana, amplo, com piano de cauda e uma pequena orquestra. São umas dez e pouco da noite. Há um copo de negroni na mesinha em que você está sentado, refrescando a ponta dos seus dedos (no vidro do copo, ô, não direto no gelo). Um maço de cigarros e um zippo prateado. Pronto, you are all settled. Ponha a música para rodar e cante comigo:
I left my heart in Fran Sancisco
High on a hill, it calls to me
To be where little cable cars
Climb halfway to the stars!
And the morning fog may chill the air
I don’t care
My love waits there in San Francisco
Above the blue and windy sea
When I come home to you, San Francisco,
Your golden sun will shine for me!
My love waits there in San Francisco
(Oh shut your gut)Above the blue and windy sea
When I come home (that’s the next fella who’s gonna come out here.
And you scream at him and he’ll hit you with the microphone)W…When.. where..have I, we…
If the sun goes down, all shines on you!
agosto 01, 2006
Costa Amalfitana.
A Costa Amalfatina é o mais bagunçado lugar chique em que eu já estive. De lá – de Positano, especialmente – têm-se acesso à ilha de Capri, onde o jet set (ainda se diz jet set?) italiano (e europeu, et c.) passa as suas férias.
Mas é uma bagunça. A Costiera serpenteia as cidades em duas pistas que valem por uma, quando muito. Nas curvas, há espelhos convexos, para tentar evitar ataques cardíacos: os ônibus, aconteça o que acontecer, não param e os seus motoristas buzinam, para avisar que te esmagarão contra a parede de pedra ou te arremessarão do penhasco, conforme o lado em que você for pego. Pelo menos você os vê chegando, pelo espelho, e morde o lábio, murmurando uma curta prece a San Gennaro – é a única coisa que se pode fazer.
A vista recompensa. No videozinho não consegui captá-la com o esplendor todo. Mas percebam a maestria do motorista: além de manter o carro na estrada e filmar a paisagem, ainda há, no som de fundo, a prova de que duas crianças pulavam no banco de trás, torturando seus avós.
No hotel, para chegar ao quarto, tínhamos que tomar um elevador, descer um lance de escadas, caminhar por um corredor, tomar mais um elevador, caminhar por outro corredor e tomar o último elevador. Tudo para baixo. Ainda assim, para chegar à praia – que não tinha areia, mas seixos – precisávamos tomar mais um elevador e descer duzentos degraus (eu contei; o quinto elevador estava em manutenção).
De lá, fomos a Pompéia e, por módicos 35 euros (no final, ele pediu mais 5), contratamos um velho guia, que flanava ligeiro sobre as pedras, explicando, num italiano pausado (o que é quase um paradoxo), os highlights da ex-cidade.
Coisa que não sabia: os mortos de Pompéia não ficaram “empedrados” na lava – morreram por causa dos gases, que chegam primeiro. Seus corpos, com o tempo, se decompuseram dentro das pedras. Por isso, o que os italianos fizeram, foi injetar gesso, nesses “moldes” vazios (o guia falava calcos), recuperando a forma da pessoa morta. Por isso, o que se vê, por exemplo, no “Jardim dos Fugitivos” não são corpos empedrados, mas estátuas de gesso que têm, por dentro, os ossos genuínos dos teimosos pompeienses – sim, teimosos, porque todos sabiam que o Vesúvio andava esquisito, e só os mais capatosta ficaram.
Na volta, para o hotel, tomei um caminho alternativo, e achei uma estradinha ainda mais tortuosa que a Costiera. E era noite. Estou vivo por acaso – ou por obra de San Gennaro - mas tive que tomar dois pontos no lábio.
Roma
Quando se vem da Costa Amalfitana, Roma parece uma velha chata e organizada, mas que não limpa bem os cantos.
Quando se vem da Costa Amalfitana, Roma parece uma velha chata e organizada, mas que não limpa bem os cantos.
As filas do Coliseu (primeira parada obrigatória para quem é turista, como nós, sem aspirações às mimeses de Richard Burton) cuidam de desmentir a aparente organização: jovens com crachás indecifráveis oferecem guided tours que, por alguns euros, deixam para trás todos os demais incautos. Além deles, legionários barrigudos e tatuados vendem poses, sob o sol, às japonesinhas menos envergonhadas. O espírito romano começa a se desenhar: o ar cosmopolita e apressado dos citadini esconde sua dependência das hordas turísticas que invadem a cidade, à cata de suas ruínas e monumentos.
A Fontana de Trevi já deve ter tido cara melhor: embora as suas águas translúcidas, verde-azuladas, ainda façam uma composição mágica com o concreto amarelado e histórico de Netuno e seus cavalos, e o barulho das cascatas seja entontecedor, não há Mastroianni que resista a um bando de hindus e chineses espocando flashes, uns nas cabeças dos outros.
Caminhamos por Roma contra a nossa vontade: táxis já são difíceis por lá, e ficaram virtualmente impossíveis com o sciopero, que nos pegou de calças curtas. Com duas crianças pequenas e seus dois avós, nossa capacidade de deslocamento passou a ter fatores-limites em quatro pernas muito novas e em outras quatro, já cansadas.
Ainda assim, acompanhamos uma procissão de três horas, sob o sol, para chegar à Capela Sistina. É uma das obras mais fáceis de elogiar – justamente porque é o capo lavoro de todos os capi lavori. Apesar do calor infernal, da barulheira galinácea dos colegas turistas, é possível perder-se, por alguns minutos, nas figuras que se desprendem do teto. Êxtase na pintura, e agonia, depois de mais algum tempo em pé, com as crianças puxando as calças, uma com medo da caveira saída do Juízo Final, outra querendo saber porque o Michelângelo pintou murcha a própria cara.
À noite, a cidade é simpática e calma. Os restaurantes fecham cedo, mas percebe-se o agito dos bares e das casas de música. Na Via Nazionale, no caminho entre o hotel e a lan house de um indiano (onde ia, viciado, ver os e-mails toda noite), descobri o Flann O’Brian Irish Pub. Ensaiei entrar e pedir uma Guiness, mas desisti, depois de ver que um dos destaques do menu era uma impensável picanha argentina. Multiculturalismo, sobretudo em cardápios, tem limites.
Mas come-se muito bem em Roma, claro – só que apenas nos curtos horários em que os restaurantes se mantêm abertos: não há, na Itália inteira, o rodízio de dois ou três clientes por mesa, como temos em São Paulo. Isso não só pelo famoso ritual, de primeiro e segundo piatti, mas também porque os restaurantes, se usarem produtos congelados ou concentrados (como um prosaico caldo de carne, por exemplo) são obrigados a fazerem a ressalva, nos menus. Logo, como ninguém quer se diminuir no próprio cardápio, só se come comida absolutamente fresca.
No último almoço, o simpático garçom entristeceu-se por não ter gelati: eles não tinham nem freezer... Mas recomendou Il Gelatone, logo ali, na Via dei Serpenti. E, lá, favorecida por um calor africano, mais uma obra-prima.
Chegar ao Fiumicino, sem táxis, prometia ser uma aventura: falando italiano com a recepcionista do hotel, só conseguimos um bilhete, sob a porta, dizendo que, me dispiace, nada podiam fazer. Mas tentei um truque: procurei outra recepcionista, com quem ainda não tivesse falado, e perguntei, em inglês, o mais britânico que consegui produzir, se ela não poderia nos ajudar – afinal, tinha elderly people and small children, para cuidar. Em uma hora, ela nos conseguiu uma van, com guia e tudo. Pode ter sido só coincidência, mas...
O Fim da Viagem
No aeroporto de Madrid-Barajas, tentei prolongar a sensação de ser estrangeiro evitando ficar junto ao portão de embarque, onde já tinha ouvido dois gays demarcarem, com alegres gritinhos, as emoções de um PlayStation Portable, cujos efeitos sonoros absorviam de um romântico fone duplo. Afastei-me o mais possível dali, enquanto o resto da minha entourage desmoronava-se nas confortáveis cadeiras da espera.
Aquele aeroporto, aliás, me fez sentir um estrangeiro no espaço e no tempo: talvez seja o mais longe que alguém pode chegar do Brasil de hoje. O lugar é enorme; trens silenciosos conduzem os viajantes atônitos para os portões de embarque, e a placas adivinham os minutos que faltam para você alcançar o seu portão. Os vôos não são anunciados nos alto-falantes, mas em largas telas de cristal líquido. É uma obra de engenharia e arquitetura finalmente típica do terceiro milênio. Vai das curvas orgânicas de Gaudí à assepsia metálica de Gehry. E, o que é melhor, sem passar pelo Niemayer.
Mas estava ali só em escala e, voltava determinado a não achar tudo uma porcaria; disposto a, na comparação com a Itália, não achar tudo tão irremediavelmente ruim. A música popular italiana, por exemplo, parou nos anos 80 e não conseguiu, até hoje, se livrar do sintetizador. Claro, a de cá não é melhor – mas, ao menos, não é tão pior. A organização das coisas, idem: lá, como aqui, tudo se arranja na conversa (às vezes aos berros), apesar da incrível quantidade de leis. Essa era a atitude mental que eu tentava me impor: aqui não é tão ruim, as coisas em outros lugares não são muito melhores e, caramba, aqui você tem toda a sua vida. Você nasceu aqui, goste ou não!
Mas essa bobagem não resistiu ao cara legal e de tiara que, depois de todos sentados e acomodados no avião, exibia sua enorme boa-vontade em trocar de lugar para que um casal de idosos pudesse sentar lado-a-lado : “para mim, tudo é alegria. Vamos para o Brasil, ê! Tem coisa melhor?” Sorrisos, sorrisos. Só faltaram palmas e u-hus.
O tipo é comum – magro, meio narigudo, moreno e com olhos grandalhões no rosto mal-barbeado. Exibe, além da tiarinha discreta, uma camiseta engraçadinha – no caso, uma camiseta preta, com “PUM” em lugar de “PUMA”, e uma vaca, fazendo as vezes do felino, no logotipo famoso. Sentou-se, enfim, e fez algum comentário em semi-francês para o vizinho da poltrona, que respondeu em português: era brasileiro, há-há.
A minha trupe – eu inclusive – conseguiu dormir o vôo todo, de sorte que só avistei o cara legal depois do desembarque, quando ele, retirando a sacola da esteira (esse tipo, por alguma espécie de corporativismo, não usa malas) declarou à moça ao seu lado – e ao resto dos infelizes circundantes, com saudável e catabólica honestidade: “ainda bem que veio logo. Estava louco para ir ao banheiro. Tchau-tchau”. Pela cara e pela pressa, era número dois.
Por maior que seja a boa-vontade, não há otimismo que resista ao desânimo de viver no mesmo lugar que caras legais, como esse. Por isso, mais tarde, no táxi, quando abri o jornal e dei de cara com um ônibus incendiado na Aspicuelta, já estava curado, e dei de ombros.
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