Histórias do Tarô.
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Roma

Quando se vem da Costa Amalfitana, Roma parece uma velha chata e organizada, mas que não limpa bem os cantos.

Quando se vem da Costa Amalfitana, Roma parece uma velha chata e organizada, mas que não limpa bem os cantos.

As filas do Coliseu (primeira parada obrigatória para quem é turista, como nós, sem aspirações às mimeses de Richard Burton) cuidam de desmentir a aparente organização: jovens com crachás indecifráveis oferecem guided tours que, por alguns euros, deixam para trás todos os demais incautos. Além deles, legionários barrigudos e tatuados vendem poses, sob o sol, às japonesinhas menos envergonhadas. O espírito romano começa a se desenhar: o ar cosmopolita e apressado dos citadini esconde sua dependência das hordas turísticas que invadem a cidade, à cata de suas ruínas e monumentos.

A Fontana de Trevi já deve ter tido cara melhor: embora as suas águas translúcidas, verde-azuladas, ainda façam uma composição mágica com o concreto amarelado e histórico de Netuno e seus cavalos, e o barulho das cascatas seja entontecedor, não há Mastroianni que resista a um bando de hindus e chineses espocando flashes, uns nas cabeças dos outros.

Caminhamos por Roma contra a nossa vontade: táxis já são difíceis por lá, e ficaram virtualmente impossíveis com o sciopero, que nos pegou de calças curtas. Com duas crianças pequenas e seus dois avós, nossa capacidade de deslocamento passou a ter fatores-limites em quatro pernas muito novas e em outras quatro, já cansadas.

Ainda assim, acompanhamos uma procissão de três horas, sob o sol, para chegar à Capela Sistina. É uma das obras mais fáceis de elogiar – justamente porque é o capo lavoro de todos os capi lavori. Apesar do calor infernal, da barulheira galinácea dos colegas turistas, é possível perder-se, por alguns minutos, nas figuras que se desprendem do teto. Êxtase na pintura, e agonia, depois de mais algum tempo em pé, com as crianças puxando as calças, uma com medo da caveira saída do Juízo Final, outra querendo saber porque o Michelângelo pintou murcha a própria cara.

À noite, a cidade é simpática e calma. Os restaurantes fecham cedo, mas percebe-se o agito dos bares e das casas de música. Na Via Nazionale, no caminho entre o hotel e a lan house de um indiano (onde ia, viciado, ver os e-mails toda noite), descobri o Flann O’Brian Irish Pub. Ensaiei entrar e pedir uma Guiness, mas desisti, depois de ver que um dos destaques do menu era uma impensável picanha argentina. Multiculturalismo, sobretudo em cardápios, tem limites.

Mas come-se muito bem em Roma, claro – só que apenas nos curtos horários em que os restaurantes se mantêm abertos: não há, na Itália inteira, o rodízio de dois ou três clientes por mesa, como temos em São Paulo. Isso não só pelo famoso ritual, de primeiro e segundo piatti, mas também porque os restaurantes, se usarem produtos congelados ou concentrados (como um prosaico caldo de carne, por exemplo) são obrigados a fazerem a ressalva, nos menus. Logo, como ninguém quer se diminuir no próprio cardápio, só se come comida absolutamente fresca.

No último almoço, o simpático garçom entristeceu-se por não ter gelati: eles não tinham nem freezer... Mas recomendou Il Gelatone, logo ali, na Via dei Serpenti. E, lá, favorecida por um calor africano, mais uma obra-prima.

Chegar ao Fiumicino, sem táxis, prometia ser uma aventura: falando italiano com a recepcionista do hotel, só conseguimos um bilhete, sob a porta, dizendo que, me dispiace, nada podiam fazer. Mas tentei um truque: procurei outra recepcionista, com quem ainda não tivesse falado, e perguntei, em inglês, o mais britânico que consegui produzir, se ela não poderia nos ajudar – afinal, tinha elderly people and small children, para cuidar. Em uma hora, ela nos conseguiu uma van, com guia e tudo. Pode ter sido só coincidência, mas...