Na falta de coisa melhor, deixo com vocês um artiguete raivoso, que vai para o jornal da famiglia. Sorry.
Difícil escapar do assunto do momento: eleições. Enquanto escrevo, os jornais anunciam que Lula leva no primeiro turno, apesar dos pesares. Também anunciam que nestes dias andou se comparando, num arroubo de imodéstia – ou em mais uma boquirrotice incontrolada – a ninguém menos que Jesus Cristo: também ele tem, entre seus apóstolos, um que o traiu (para ficar na diferença mais engraçadinha, apenas um dos doze apóstolos de Jesus o traiu, não o contrário...).
Mas é duro ver esta eleição – não só porque, aparentemente, a vá ganhar o Lula (e teremos que agüentar mais quatro anos de bobagens vexatórias e mais algumas óbvias, conquanto surpreendentíssimas, traições), mas também porque, se ele não ganhar, quem ganha é o Geraldo.
O Geraldo, meu Deus. Não tenho nada contra ele – fala direitinho, tem ar de bom moço, de bom filho e de bom pai; estudou; diz ser trabalhador e religioso; nunca tomou processo e, até aqui, ninguém o “traiu”. Mas é de um partido irmão-gêmeo-univitelínico do PT.
Sim, não se iluda: estas eleições não têm direita e esquerda. Têm esquerda contra esquerda moderada. Se você não lembra da história (Lula e FHC berrando, de mãos dadas, com a Fafá e o Osmar Santos, pelas Diretas-Já!), pelo menos veja os programas de governo dos dois partidos: encontrarão, lá, os assistencialismos populescos (que, quando eu era moleque, chamavam “coronelismo” e “voto-de-cabresto”), o aumento da arrecadação tributária, o arrocho na fiscalização, a manutenção da taxa de juros em níveis capazes de controlar a inflação... São sinais óbvios do socialismo estatizante, que transfere capital da produção para o governo – não para o povo, em nome de quem levanta todas as bandeiras. A este, só chegam migalhas, porque a educação – único meio seguro de chegar-se à riqueza, em todos os seus sentidos – todos prometem, mas ninguém entrega.
E ao contrário do resto do mundo – que vai, a passos largos, para o capitalismo, competitivo, mas consciente e responsável – ainda estamos atrás do socialismo utópico que alimentava minhas esperanças de pré-adolescente: imagine no possessions, I wonder if you can, no need for greed or hunger, a brotherhood of men...
Ainda acreditamos – é de pasmar – que a mais sangrenta ditadura da América Latina, cujas enfermeiras se prostituem nas esquinas, à frente dos maridos, para buscar os dólares impossíveis, tem a melhor Medicina do mundo, e o mais democrático de todos os líderes.
Ainda acreditamos que os norte-americanos invadiram o Iraque só pelo petróleo, que deviam deixar o Saddam Hussein em paz, e que o engenheiro brasileiro (alguém aí ainda lembra?) raptado pelos audazes terroristas aparecerá, incólume, salvo e barbeado, com um formal pedido de desculpas pelo engano.
Ainda acreditamos no mito do bon sauvage. E, por isso, o elegeremos, voltando dez mil anos no tempo da história da humanidade e provando, definitivamente, que errar é humano, e repetir o erro, burrice.




