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outubro 31, 2006
"Visões de São Paulo"

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outubro 25, 2006
Resoluções.

Neste intervalo forçado - sempre que eu não escrever aqui, podem ter certeza que estou fazendo coisas de que não gosto - acabei tendo alguns pensamentos esparsos, que lanço aqui como resoluções. Resoluções, no meu dicionário, são decisões pessoais que não valem quase nada.

A primeira é que não vou mais escrever sobre política, aqui. Reli os últimos posts que escrevi sobre o imbecil tema e me senti mais imbecil que de hábito. Que se danem o Lula, o Alquimim, todos. (Só uma última observação, vai: no RodaViva, o Lula, encoxado com a questão do apoio financeiro do fundo Previ ao empreendimento do seu pimpolho, disse que não podia tomar as dores dele. Eu sou a antítese disso: tomo todas as dores dos meus filhos. Que raio de homem estamos elegendo, meu Deus?).

A segunda não é bem uma resolução, mas uma constatação: blogs são como um tênis Puma vermelho - caras com mais de quarenta, como eu, ficam meio ridículos, usando um. Ao mesmo tempo, têm um appeal quase irresistível. Prometo-me usar com moderação.

outubro 09, 2006
The Clash.

Ó, o Geraldo ganhou, não tem dúvidas: na pior das hipóteses, mostrou que há alternativa ao Lula, e que é um cara mais bem preparado. O Lula não corre mais sozinho.
Mas quem perdeu fomos nós, eleitores com já alguma compreensão do status quo: o Geraldo, para ganhar, teve que entrar no jogo do Lula: ataques ad hominem, jogo para a platéia, e uma dúzia dos estratagemas para vencer um debate, mesmo sem ter razão. E foi melhor que o Lula, aí, no rasteiro jogo dele (além de meter uma citaçãozinha de Santo Agostinho, no final, que pareceu até superstição).
Essa troca de sopapos, contudo, não esclarece nada sobre as plataformas, menos ainda sobre o que está na cabeça dos candidatos. É bom, porque a plebe ignara – que decide a eleição – viu que o Geraldo é “macho”, tanto quanto o Lula, senão mais. Mas só: quem queria aprofundamentos, danou-se.
E eu tive um frio na espinha quando o Lula disse que quer que sonegação fiscal seja crime inafiançável, e o Geraldo não disse nada.
Será que ninguém percebe que deixar de pagar imposto é um ato de muito menor gravidade que um homicídio, que um roubo, que um furto, até (nenhum desses, sozinho, inafiançável)?
Eu já acho ridículo que deixar de pagar imposto seja crime – é crime deixar de pagar o condomínio? – quanto mais que seja inafiançável. Deixou de pagar imposto? Cobre-se, tomem-se os bens, despreze-se o véu da pessoa jurídica, atinjam-se os bens de mulheres, filhos, cunhados e laranjas. Mas prender?
Talvez seja hora de Gabeirar, e incentivar a descriminalização da sonegação fiscal – aliás, taí um bom argumento: segundo os canabeiros, descriminalizando, cairá o consumo da erva. Então: descriminalizando a sonegação fiscal, decerto, vamos aumentar a arrecadação...

outubro 05, 2006
Burguesinho, II.

Sônia e Elisabete moravam juntas. Sônia era filha de um viúvo, fabricante de botões e pentes, feitos de chifre de vaca, que culpava o plástico por sua falência. Talvez por isso ela tivesse aquele ar aristocrático: foram muito ricos e quebraram, mantendo apenas o bem de família, desproporcionalmente marmóreo para aquele bairro classe média-baixa da zona leste. Lá, ela morou com o pai, até que um câncer lento, e cheio de impropérios contra a baquelite, a deixasse infinitamente sozinha.

Foi pouco depois da morte do pai que convidou a Bete, para dividir despesas – não tinha como mudar-se, e os silêncios da casa imitavam os últimos gemidos do moribundo, à noite. Bete morava só, depois de um casamento sem filhos, e aceitou sem pensar. Acabaram compartilhando mais que a casa: na hormonal imaginação dos seus aluninhos, dividiam a cama, a pia do banheiro, os tapetes da sala...

No começo, havia algum constrangimento no convívio: uma sentia-se um pouco como anfitriã, responsável pelo bem-estar da outra. A outra, meio-visita, meio-pagante, morria de medo que a outra achasse que incomodava, que passava de limites. E nenhuma das duas estava realmente à vontade nos encontrões pelos corredores, nos flagrantes dos ataques noturnos à geladeira. Mas a natureza dócil, meiga mesmo, das duas, causava mais gentilezas, escusas murmuradas e rubores incontrolados que efetivo mal-estar. Davam-se bem, enfim.

Numa noite de bom calor, Sônia abria um pote de sorvete de creme, quando Bete, de calcinha e camiseta, apareceu na cozinha, pensando no mesmo pote, que haviam comprado para dividirem.

A doce conversa começou pela depressão que o desejo noturno pelo sorvete denunciava; passou pelo Portinho, o professor de Educação Física cujos agasalhos justos causavam métricos comentários na sala das professoras; andou pelo desempenho de alguns alunos, inversamente proporcional ao número de espinhas que exibiam, e terminou em risadas cúmplices, que pontuavam os comentários maldosinhos sobre os alunos, as alunas, as outras professoras e as freiras do colégio.

A hora, anunciada pelo velho carrilhão da sala em três gongadas, fez com que se forçassem a ir para a cama. E Sônia, quase sem perceber, foi beijar o rosto de Bete. Só quando estava perto demais para voltar para trás, lembrou-se que a outra estava semi-nua. Naquela noite, em camas separadas, nenhuma delas dormiu.

outubro 02, 2006
O Eterno Aprendiz.

Ninguém me perguntou, mas eu digo assim mesmo: eu até gosto do Geraaaaldo.Mas o PSDB, ai, ai, ai. Vou votar nele, de novo, só por ele, não pelo partido (melhor – apesar do partido). Voto personalista. Queria um Caxias na Presidência, não esse Grande Apedeuta, que é a encarnação da mesa de pagode, do churrasco com celveja, dos futebóis vestido de mulé, das pequenas sacanagens que vão descambando até virarem escândalos.

Vejo aquela Enorme Anta Barbuda e me vem na cabeça a música do Gonzaguinha - Vivê-ê-ê-ê-ê-r, e não ter a velgonha de ser feliz, cantar e cantar e cantar, a alegria de ser um eter-no aprendiz, Ah, meu Deus - cantada assim, meio de foguinho, com a camisa desabotoada, numa festa de fim-de-ano, enquanto se finge que não se quer passar a mão na bunda da secretária.

Isso, juro, eu não agüento mais.


(Não gostaram do post? Culpem-no.)