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dezembro 29, 2006
A Bittersweet Piece of Advice for New Year's Eve.

diamond.jpg
"His was a great sin who first invented consciousness. Let us lose it for a few hours."

Burguesinho, IV.

Sônia percebia as intenções daquele menino precoce. Comparava com Elisabete as provas dele, no final de cada trimestre, e constatava que, nas suas, ele fazia letra mais caprichada e redigia as respostas com a falsa profundidade própria de quem quer chamar a atenção. Escrevia para ela como se estivesse empostando a voz.

Percebia também que, quando conversavam, ele se inclinava na direção dela e, embora não se atrevesse a deixar o olhar escorrer do queixo, o corpo adolescente se contorcia a cada exclamação, como se quisesse mergulhar no seu decote. Não a incomodava, esse assédio mudo; até gostava, achava lisonjeiro.

O menino, afinal, era bem bonitinho, e apesar da aparência desleixada, estava sempre perfumado – Sônia tinha certeza que era Azzaro, a ponto de lembrar do menino, sempre que sentia esse perfume.

Além disso, aquela atenção toda servia para apimentar a Bete. Mais de uma vez, enquanto conversava com o menino, a Bete inventou coisas para fazerem juntas, e veio resgatá-la com urgência imaginária. Nos dias em que era pega de conversas com o garoto, percebia, às vezes, uma dedicação maior; às vezes, um mau-humorzinho de razões não-declaradas.

Gostava, gostava.

Só começou a se preocupar com a história, quando abriu seu diário de classe e nas dobras do papelão azul, colocado ali às escondidas – ninguém ousava ser visto xeretando os diários de classe – apareceu um soneto, manuscrito numa letra caprichada, que ela reconheceu ainda inconscientemente:

“Pedaços da pretensa perfeição...”

dezembro 22, 2006
Noir.

O nome da Aposta é "cambalacho", mas joguei honestamente: desta vez, postei a história inteirinha, sem deixar suspense. The names have been changed to protect the guilty. Espero que gostem.

JS10620.jpg

A reforma do escritório custou duas vezes mais do que eu previa. E eu já previra duas vezes mais do que o orçamento do empreiteiro. Pelo menos consegui que minha sala ficasse meio penumbrosa e coloquei sofá e poltronas para receber clientes, ao invés das tradicionais Giroflexes. Só lamentei não poder fazer uma porta de vidro fosco, para pintar meu nome em semicírculo, como o do Spade ou o do Marlowe: a clientela não levaria a sério um advogado com frustração por não ser detetive.

O sol do final de tarde brigava com as persianas e eu ouvia Sinatra no computador, digitando um aborrecido recurso especial, quando a recepcionista anunciou, com cara enfezada, que uma moça queria me ver. Botou o rosto na porta, enviesado:

- Diz que é indicação do Dr. Oliveira, resmungou, fazendo voz fina e biquinho de pouco caso. O Oliveira era juiz da vara de família e ex-colega da faculdade e, de vez em quando recomendava um caso ou outro.

Bufei, como se tivesse sido interrompido no meio de algum raciocínio essencial, para que a Diva (esse foi o nome que a mãe e o destino escolheram para a recepcionista) se sentisse um pouco culpada. Sempre tento fazê-la se sentir um pouco culpada. É saudável, e ela merece: tem uma esperança oculta de me amarrar e, por isso, nunca cede às minhas investidas, nas longas tardes desocupadas em que dividimos o escritório, enquanto o estagiário vai ao Fórum. Ou onde quer que seja que ele vai, para matar o tempo.

Pausei o player no canto da tela, desdobrei as mangas, abotoei o colarinho, refiz a gravata e pedi que ela trouxesse a moça.

Imediatamente entendi o porquê do pouco caso fingido da Diva. A moça era quase da minha altura – modestamente atléticos 1,83m – e vinha embalada num improvável vestido preto: já é inesperado que moças usem vestidos, mas preto, pouco abaixo do joelho e justo no corpo, sem agarrá-lo, é, de fato, coisa rara. De cima para baixo, era a coisa mais sofisticada que já pusera os pés naquela sala, antes ou depois da reforma: longos cabelos castanhos claros, tratados e bem cortados, mas sem tinturas; olhos úmidos, cor-de-mel e ligeiramente avermelhados do choro que a trazia ali; boca, ah, a boca – nem vou tentar. Seios anti-Newton escondidos em um não-decote do anacrônico vestido. Uma suave barriguinha, indicadora de saudável ojeriza a academias. Impossíveis meias de nylon, com costura atrás. E – tremi – sapatos baixos. Não há nada que melhor defina uma mulher bonita que sapatos baixos: é o tipo que compete com você, e ganha, usando apenas as mesmas armas.

Ao levantar apoiei a mão no teclado, e o Frank, ainda jovenzinho, comentou: I hope that she turns out to be, someone to waaa.... Ela sorriu da minha trapalhada, e enquanto eu ainda clicava o mouse: – “...someone to watch over me? Meu pai amava Sinatra. E Gershwin”. Devo ter ficado lívido, mas me controlei. Sorri, de meia-boca, como se tivéssemos falado de Caetano Veloso e Peninha. Nada demais. Todo mundo gosta. Defensivo, é o que sou.

- Sente-se, faz favor. Então conhece o Dr. Oliveira?

- Faz meia hora, mais ou menos. E puxou, da bolsinha, um lenço: juro, um lenço. De pano. E com as laterais bordadas. Não posso garantir, mas é provável que tivesse monograma.

Deus, como queria uma linha do Spade, naquela hora. Mas, claro, não veio:

- Como assim? Pensei que ele me tinha recomendado!

- Recomendou. Eu sei que parece estranho, mas explico.

E explicou: o seu casamento de dois anos tinha acabado naquela manhã, com o marido, entupido de coca, apontando um revólver para a própria cabeça. Ela se chamava Maria Antonia Retzlav Meirelles, era de São Mateus do Sul, na divisa do Paraná com Santa Catarina. Veio a São Paulo num concurso de modelos. Conheceu o Vitinho – Vitor Campos de Meirelles – numa festa. Em quatro meses, casaram-se; seu pai viera de São Mateus para o casamento; a mãe já era falecida. Lua-de-mel em Calgary, no inverno. Na volta, o ciúme dele a fez largar a agência de modelos. No primeiro ano, percebeu que o Vitinho não cheirava coca "só de barato", como dizia no começo. Era mesmo viciado, a ponto de ir às favelas, comprar papelotes. Tentou afastá-lo, cogitou de enfiá-lo numa clínica, e acabou descobrindo que a família dele estava mais preocupada com ela, que com a coca. Largou mão, e o Vitinho foi ladeira abaixo, auto-destrutivo como só filhinhos-de-papai sabem ser.

- Hoje, não agüentei. Mandei que parasse de ameaçar e enfiasse logo uma bala na testa. Ele chorou. Apontou a arma para mim, e chorou com ódio. Eu dei as costas e saí sem pegar nada. Só a bolsa. (E o lenço, pensei eu. O lenço!). Passei a manhã no Iguatemi e, na hora do almoço, descobri que o Vito cancelou meus cartões. Paguei o almoço com o dinheiro que tinha e, com o resto, decidi pegar um táxi até o Fórum, para procurar ajuda. Entrei na primeira sala que me indicaram, contei minha história e perguntei se podiam me ajudar. Foi assim que eu conheci o Dr. Oliveira e foi assim que ele me indicou o seu escritório. Ainda bem que deu para vir a pé.

De fato, o Oliveira era da primeira vara, e sua sala ficava de frente para o corredor. É um cara solícito, que não nega ajuda, nem informação. Nem mesmo a advogados. Era natural que o apontassem para uma figura como ela.

O caso parecia bom. Mão no queixo, sem falar mais nada (o silêncio, nos detetives, indica a ruminação de um cérebro superior), pesquisei o nome do drogado no Google. A tela, virada para mim e de costas para ela, mostrou no primeiro registro uma reportagem da Exame: o cara era de uma linhagem de banqueiros, que negou o DNA para abrir uma ponto-com, com a qual confirmou o DNA, ganhando alguns milhões, em menos de dois anos. E o maldito, que tinha pouco mais de trinta, aparecia na fotografia da reportagem como um jogador de pólo, bronzeado e musculoso, num termo evidentemente feito su misura. Curioso que outro registro do Google indicasse a cidade de Vítor Meireles, no Paraná.

- Quando se casaram?
- Há dois anos e sete meses.
- Filhos?
- Não.
- Separação total?
- Hã?
- Assinou algum pacto antenupcial? Fez trato de divisão de bens?
- Não, não. A família dele queria, mas ele não aceitou. Casamos com separação parcial.
- Tem a certidão aí?
- Não, só peguei a bolsa.
- ...
- O que faço?

A pergunta não era um pedido. Ela esperava ordens diretas, não ajuda. Queria conselho, não caridade.

- Onde moram?
- Vila Nova Conceição.
- Apartamento dos pais?
- Não, dele: compramos há um ano, mais ou menos. Assinei a escritura junto.
- E carros?
- Uma Mercedes-benz duas portas, não sei o modelo direito. E uma Porsche...
- Cayenne?
- Cayenne.

Deus. Obrigado Oliveira, obrigado Oliveira, obrigado Oliveira. Expliquei a ela o que faríamos: separação de corpos e arrolamento dos bens, logo amanhã. Separação judicial litigiosa (sempre bom adjetivar as causas para a clientela; impressiona), acusando-o de ser drogado. Pedido de pensão de pelo menos uns dez mil, provisórios. E, no fim, metade do patrimônio adquirido depois do casamento. Ela não pareceu se animar. Pareceu mais aliviada, só.

- E agora?
- Como assim?
- E agora, hoje, agora. O que faço? Para onde vou?
- Seu pai está no Paraná? Casa de uma amiga?
- Meu pai faleceu o ano passado. Aqui só tenho amigas que são mulheres ou namoradas dos amigos dele.
- Parentes, nenhum?
- Em São Mateus, duas tias. Mas como faço para chegar lá? E não preciso estar aqui, para o processo?
- Hotel?
- Pagar com o quê?

Pensei, claro, no meu apartamento, na São Luis. Mas, não. Precisava de dinheiro, para terminar de pagar a reforma do escritório; não era a hora de me envolver com clientes tão promissoras. Além disso, sempre tenho vergonha de levar mulheres interessantes ao apartamento – o prédio só tem gays e velhinhos, e é meio estranho, mesmo, que eu more sozinho, ali. Só o preço e a comodidade de chegar no escritório a pé, explicam. Não, eu não sou gay. Nem velhinho.

- Faz assim. Te empresto uns quinhentos reais, você vai a um hotel. Tem um Fórmula Um, na Nove de Julho, com diária de mais ou menos setenta reais.

Perguntou, ficando um pouco vermelha, e com a voz quase trêmula, mas firme e digna, se não podia ser uns dois mil. Tinha que comprar roupas, coisas de farmácia, tudo. E pegar táxi.

- Claro.

Pedi à Diva que sacasse um cheque do escritório. Ela me chamou para fora da sala e, gesticulando como um juiz de futebol, berrou o mais baixo que pôde:

- Vai dar o dinheiro para essa vagabunda? Tem que pagar o sofá e as poltronas na quarta-feira! E o meu salário, que não vejo faz dois meses?

- Saque o dinheiro. E rápido. É investimento. Você sabe que eu não erro, nunca. Vai.

- Mas...

- Vai! Apontei a porta com as sobrancelhas e os olhos bem abertos. Cara de chefe.

Depois de entregar o dinheiro – ela fez questão de assinar um recibo, para debitar do que recebesse do Vitinho – e depois que ela foi embora, prometendo me ligar do hotel para passar o número, expliquei o caso à Diva, que me irritou, garantindo que era golpe.

Quando, enfim, também a Diva foi embora, batendo os saltinhos no corredor para mostrar que estava brava, apaguei as luzes da sala, pus uma dose de Knockando num copo com duas pedras e invoquei o Frank. Devia ter percebido que era um presságio: We’re drinking my friend, to the end of a brief episode… So make it one for my baby, and one more for the road.

dezembro 19, 2006
Bernice Bobs Her Hair.

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"People over forty can seldom be permanently convinced of anything. At eighteen our convictions are hills from which we look; at forty-five they are caves in which we hide."

dezembro 11, 2006
Burguesinho, III.

Ia ver, ia ver, mas não viu. Aquele negócio de a Dona Sônia me chamar de burguesinho funcionou com uma perfeição de que até Skinner duvidaria.

Na adolescência, emagreci, cresci e, para mostrar a força hormonal, aproveitando para esconder as denunciadoras espinhas, deixei crescer a barba, castanha e rala, de fios esparsos e compridos, como são as primeiras barbas. Usava minha pobreza auto-imposta com nonchalance. Andava de calças jeans com as barras desfiadas, camisetas quaisquer, sandálias e bolsa de couro.

Lia e relia Kerouac e Bukowski, enchia a cara de pinga e cerveja, fumava maconha e transava com a maior quantidade de meninas que conseguisse, fosse quem fosse (a “maior quantidade de meninas”, porém, não chegou a cinco – e três eram bem gordinhas. Na minha época, as gordinhas eram sempre mais assanhadas). As burguesinhas da escola preferiam caras menos politizados, e que não falassem das agruras do proletariado, da mais-valia, da exploração do homem pelo homem.

Mas a minha paixão, tão violenta que eu sequer conseguia imaginá-la nua, continuava sendo a Dona Sônia. Minha militância, a despeito da aparência pouco higiênica, aproximou-me dela. Ela – voltou a ser minha professora, no colegial – dava atenção e respondia com cuidado, quando eu a procurava com alguma pergunta de História.

Eu percebia sua intimidade crescente com a professora Elisabete. Notava que combinavam coisas com olhares, como fazem os casais mais antigos. Mais de uma vez, as minhas perguntas ficaram sem respostas completas porque a Elisabete passava às minhas costas, sinalizando alguma coisa, e a Dona Sônia saía, apanhando os livros, pedindo mil desculpas e jurando voltar ao assunto na outra aula.

Nesses dias, eu escrevia poesia realmente ruim – lembro uns trechos:

Pedaços da pretensa perfeição,
a personificação do pecado puro
A aparência impávida do muro,
a carência cálida da podridão.

Escrevia, rasgava, sofria, chorava, bebia, fumava. E acabava na sala do Diretório Acadêmico, atacando as banhinhas frias de alguma gorducha carente.

__________________
(I e II, aqui).

dezembro 07, 2006
Confound you.

"No man can hold himself accountable for the results of his psychological defects, especially those he shares with all his fellow men, such as lack of omniscience. It is a vulgar fallacy that what you don't know can't hurt you; but it is true that what you don't know can't convict you".

dezembro 06, 2006
Onde Narro Minha Experiência Esotérica Mais Recente.

No corredor da Ana Rosa, a caminho dos trens, um cartaz quase me fez tropeçar. Zibia, mão no queixo, sorria para mim, anunciando que “O Amanhã a Deus Pertence”. Parei, estupidificado pela cara dela, que eu nunca tinha visto antes. Imaginava que fosse uma velhinha simpática, que acreditava em fantasmas e tinha medo de dormir sozinha. De uma certa maneira, isso a redimia. Mas, não: na foto, via-se uma velha bem perua, cheia de laquê, e cuja voz certamente pareceria com a da Zilka Salaberry.

Fiquei parado uns instantes, acho que esperando que ela piscasse para mim. Mas não piscou.

Desci, entrei no vagão, e abri o “Prisoner’s Base” (terceiro Nero Wolfe in a row, como se faz para parar?). Um cara de cabeça pequena, com um bigodinho branco centralizado sobre os dentões salientes, genuína ratazana de camisa pólo azul, e grávido de uns oito meses, levantou-se do banco cinza, oferecendo-o a uma moça grávida de uns seis meses, que recusou a gentileza, porque desceria na próxima.

Enquanto os grávidos trocavam sorrisos de simpatia e sem-jeitice, uma mulherzinha esperta esgueirou-se por baixo do meu braço e tomou o assento vago, logo enfiando a cara num livro que não consegui identificar. Foi aí que eu ouvi, nítido, no meio do zum-zum-zum do vagão:

- Ela é má, liberte-me!

Ninguém em volta parecia ter dito qualquer coisa.

- Liberte-me, liberte-me! Agora era um sussurro, voz de homem, educada, quase delicada.

- Cacilda, pensei (às vezes, em pensamento, policio palavrões), olhando em volta, sem fechar o livro. Nada. Ninguém me olhava, ninguém conversava e até os gorduchos tinham parado de se olhar.

Dei de ombros. Na Sé, quase todos desceram e muitos outros subiram. Logo depois do segundo apito, a mesma voz, de novo, agora um pouco mais aguda. Quase um lamento:

- Liberte-me! Ela me escraviza!

- Ahn? falei, alto, de susto. Um cara tatuado, apesar dos head-phones, olhou esquisito para mim e afastou-se um passo. A mulher que lia, no assento à minha frente, levantou os olhos, olhou o relógio e fechou o livro. Levantou-se e, passando de novo por baixo do meu braço estendido, foi até a porta, preparando-se para descer.

Quando ela levou o livro ao peito, vi um desenho esotérico, de um homem com a cabeça femininamente inclinada, contornado pelos reflexos de uma luz forte e bege, de modo que não se conseguia distinguir bem os traços do seu rosto. Mas a porção carmim da cara, que devia ser a boca, nitidamente, moveu-se:

- Liberte-me! Liberte-me que serei seu!

Respirei aliviado e desci na São Bento, lado a lado com a mulher. Segui emparelhado com ela, na direção da saída para o Vale do Anhangabaú, e, antes de mudar de rumo e subir as escadas para a São Bento, sussurrei, entredentes:

- Vai se danar, Lucius!