Ia ver, ia ver, mas não viu. Aquele negócio de a Dona Sônia me chamar de burguesinho funcionou com uma perfeição de que até Skinner duvidaria.
Na adolescência, emagreci, cresci e, para mostrar a força hormonal, aproveitando para esconder as denunciadoras espinhas, deixei crescer a barba, castanha e rala, de fios esparsos e compridos, como são as primeiras barbas. Usava minha pobreza auto-imposta com nonchalance. Andava de calças jeans com as barras desfiadas, camisetas quaisquer, sandálias e bolsa de couro.
Lia e relia Kerouac e Bukowski, enchia a cara de pinga e cerveja, fumava maconha e transava com a maior quantidade de meninas que conseguisse, fosse quem fosse (a “maior quantidade de meninas”, porém, não chegou a cinco – e três eram bem gordinhas. Na minha época, as gordinhas eram sempre mais assanhadas). As burguesinhas da escola preferiam caras menos politizados, e que não falassem das agruras do proletariado, da mais-valia, da exploração do homem pelo homem.
Mas a minha paixão, tão violenta que eu sequer conseguia imaginá-la nua, continuava sendo a Dona Sônia. Minha militância, a despeito da aparência pouco higiênica, aproximou-me dela. Ela – voltou a ser minha professora, no colegial – dava atenção e respondia com cuidado, quando eu a procurava com alguma pergunta de História.
Eu percebia sua intimidade crescente com a professora Elisabete. Notava que combinavam coisas com olhares, como fazem os casais mais antigos. Mais de uma vez, as minhas perguntas ficaram sem respostas completas porque a Elisabete passava às minhas costas, sinalizando alguma coisa, e a Dona Sônia saía, apanhando os livros, pedindo mil desculpas e jurando voltar ao assunto na outra aula.
Nesses dias, eu escrevia poesia realmente ruim – lembro uns trechos:
Pedaços da pretensa perfeição,
a personificação do pecado puro
A aparência impávida do muro,
a carência cálida da podridão.
Escrevia, rasgava, sofria, chorava, bebia, fumava. E acabava na sala do Diretório Acadêmico, atacando as banhinhas frias de alguma gorducha carente.




