Sônia percebia as intenções daquele menino precoce. Comparava com Elisabete as provas dele, no final de cada trimestre, e constatava que, nas suas, ele fazia letra mais caprichada e redigia as respostas com a falsa profundidade própria de quem quer chamar a atenção. Escrevia para ela como se estivesse empostando a voz.
Percebia também que, quando conversavam, ele se inclinava na direção dela e, embora não se atrevesse a deixar o olhar escorrer do queixo, o corpo adolescente se contorcia a cada exclamação, como se quisesse mergulhar no seu decote. Não a incomodava, esse assédio mudo; até gostava, achava lisonjeiro.
O menino, afinal, era bem bonitinho, e apesar da aparência desleixada, estava sempre perfumado – Sônia tinha certeza que era Azzaro, a ponto de lembrar do menino, sempre que sentia esse perfume.
Além disso, aquela atenção toda servia para apimentar a Bete. Mais de uma vez, enquanto conversava com o menino, a Bete inventou coisas para fazerem juntas, e veio resgatá-la com urgência imaginária. Nos dias em que era pega de conversas com o garoto, percebia, às vezes, uma dedicação maior; às vezes, um mau-humorzinho de razões não-declaradas.
Gostava, gostava.
Só começou a se preocupar com a história, quando abriu seu diário de classe e nas dobras do papelão azul, colocado ali às escondidas – ninguém ousava ser visto xeretando os diários de classe – apareceu um soneto, manuscrito numa letra caprichada, que ela reconheceu ainda inconscientemente:
“Pedaços da pretensa perfeição...”




