No corredor da Ana Rosa, a caminho dos trens, um cartaz quase me fez tropeçar. Zibia, mão no queixo, sorria para mim, anunciando que “O Amanhã a Deus Pertence”. Parei, estupidificado pela cara dela, que eu nunca tinha visto antes. Imaginava que fosse uma velhinha simpática, que acreditava em fantasmas e tinha medo de dormir sozinha. De uma certa maneira, isso a redimia. Mas, não: na foto, via-se uma velha bem perua, cheia de laquê, e cuja voz certamente pareceria com a da Zilka Salaberry.
Fiquei parado uns instantes, acho que esperando que ela piscasse para mim. Mas não piscou.
Desci, entrei no vagão, e abri o “Prisoner’s Base” (terceiro Nero Wolfe in a row, como se faz para parar?). Um cara de cabeça pequena, com um bigodinho branco centralizado sobre os dentões salientes, genuína ratazana de camisa pólo azul, e grávido de uns oito meses, levantou-se do banco cinza, oferecendo-o a uma moça grávida de uns seis meses, que recusou a gentileza, porque desceria na próxima.
Enquanto os grávidos trocavam sorrisos de simpatia e sem-jeitice, uma mulherzinha esperta esgueirou-se por baixo do meu braço e tomou o assento vago, logo enfiando a cara num livro que não consegui identificar. Foi aí que eu ouvi, nítido, no meio do zum-zum-zum do vagão:
- Ela é má, liberte-me!
Ninguém em volta parecia ter dito qualquer coisa.
- Liberte-me, liberte-me! Agora era um sussurro, voz de homem, educada, quase delicada.
- Cacilda, pensei (às vezes, em pensamento, policio palavrões), olhando em volta, sem fechar o livro. Nada. Ninguém me olhava, ninguém conversava e até os gorduchos tinham parado de se olhar.
Dei de ombros. Na Sé, quase todos desceram e muitos outros subiram. Logo depois do segundo apito, a mesma voz, de novo, agora um pouco mais aguda. Quase um lamento:
- Liberte-me! Ela me escraviza!
- Ahn? falei, alto, de susto. Um cara tatuado, apesar dos head-phones, olhou esquisito para mim e afastou-se um passo. A mulher que lia, no assento à minha frente, levantou os olhos, olhou o relógio e fechou o livro. Levantou-se e, passando de novo por baixo do meu braço estendido, foi até a porta, preparando-se para descer.
Quando ela levou o livro ao peito, vi um desenho esotérico, de um homem com a cabeça femininamente inclinada, contornado pelos reflexos de uma luz forte e bege, de modo que não se conseguia distinguir bem os traços do seu rosto. Mas a porção carmim da cara, que devia ser a boca, nitidamente, moveu-se:
- Liberte-me! Liberte-me que serei seu!
Respirei aliviado e desci na São Bento, lado a lado com a mulher. Segui emparelhado com ela, na direção da saída para o Vale do Anhangabaú, e, antes de mudar de rumo e subir as escadas para a São Bento, sussurrei, entredentes:
- Vai se danar, Lucius!




