O nome da Aposta é "cambalacho", mas joguei honestamente: desta vez, postei a história inteirinha, sem deixar suspense. The names have been changed to protect the guilty. Espero que gostem.

A reforma do escritório custou duas vezes mais do que eu previa. E eu já previra duas vezes mais do que o orçamento do empreiteiro. Pelo menos consegui que minha sala ficasse meio penumbrosa e coloquei sofá e poltronas para receber clientes, ao invés das tradicionais Giroflexes. Só lamentei não poder fazer uma porta de vidro fosco, para pintar meu nome em semicírculo, como o do Spade ou o do Marlowe: a clientela não levaria a sério um advogado com frustração por não ser detetive.
O sol do final de tarde brigava com as persianas e eu ouvia Sinatra no computador, digitando um aborrecido recurso especial, quando a recepcionista anunciou, com cara enfezada, que uma moça queria me ver. Botou o rosto na porta, enviesado:
- Diz que é indicação do Dr. Oliveira, resmungou, fazendo voz fina e biquinho de pouco caso. O Oliveira era juiz da vara de família e ex-colega da faculdade e, de vez em quando recomendava um caso ou outro.
Bufei, como se tivesse sido interrompido no meio de algum raciocínio essencial, para que a Diva (esse foi o nome que a mãe e o destino escolheram para a recepcionista) se sentisse um pouco culpada. Sempre tento fazê-la se sentir um pouco culpada. É saudável, e ela merece: tem uma esperança oculta de me amarrar e, por isso, nunca cede às minhas investidas, nas longas tardes desocupadas em que dividimos o escritório, enquanto o estagiário vai ao Fórum. Ou onde quer que seja que ele vai, para matar o tempo.
Pausei o player no canto da tela, desdobrei as mangas, abotoei o colarinho, refiz a gravata e pedi que ela trouxesse a moça.
Imediatamente entendi o porquê do pouco caso fingido da Diva. A moça era quase da minha altura – modestamente atléticos 1,83m – e vinha embalada num improvável vestido preto: já é inesperado que moças usem vestidos, mas preto, pouco abaixo do joelho e justo no corpo, sem agarrá-lo, é, de fato, coisa rara. De cima para baixo, era a coisa mais sofisticada que já pusera os pés naquela sala, antes ou depois da reforma: longos cabelos castanhos claros, tratados e bem cortados, mas sem tinturas; olhos úmidos, cor-de-mel e ligeiramente avermelhados do choro que a trazia ali; boca, ah, a boca – nem vou tentar. Seios anti-Newton escondidos em um não-decote do anacrônico vestido. Uma suave barriguinha, indicadora de saudável ojeriza a academias. Impossíveis meias de nylon, com costura atrás. E – tremi – sapatos baixos. Não há nada que melhor defina uma mulher bonita que sapatos baixos: é o tipo que compete com você, e ganha, usando apenas as mesmas armas.
Ao levantar apoiei a mão no teclado, e o Frank, ainda jovenzinho, comentou: I hope that she turns out to be, someone to waaa.... Ela sorriu da minha trapalhada, e enquanto eu ainda clicava o mouse: – “...someone to watch over me? Meu pai amava Sinatra. E Gershwin”. Devo ter ficado lívido, mas me controlei. Sorri, de meia-boca, como se tivéssemos falado de Caetano Veloso e Peninha. Nada demais. Todo mundo gosta. Defensivo, é o que sou.
- Sente-se, faz favor. Então conhece o Dr. Oliveira?
- Faz meia hora, mais ou menos. E puxou, da bolsinha, um lenço: juro, um lenço. De pano. E com as laterais bordadas. Não posso garantir, mas é provável que tivesse monograma.
Deus, como queria uma linha do Spade, naquela hora. Mas, claro, não veio:
- Como assim? Pensei que ele me tinha recomendado!
- Recomendou. Eu sei que parece estranho, mas explico.
E explicou: o seu casamento de dois anos tinha acabado naquela manhã, com o marido, entupido de coca, apontando um revólver para a própria cabeça. Ela se chamava Maria Antonia Retzlav Meirelles, era de São Mateus do Sul, na divisa do Paraná com Santa Catarina. Veio a São Paulo num concurso de modelos. Conheceu o Vitinho – Vitor Campos de Meirelles – numa festa. Em quatro meses, casaram-se; seu pai viera de São Mateus para o casamento; a mãe já era falecida. Lua-de-mel em Calgary, no inverno. Na volta, o ciúme dele a fez largar a agência de modelos. No primeiro ano, percebeu que o Vitinho não cheirava coca "só de barato", como dizia no começo. Era mesmo viciado, a ponto de ir às favelas, comprar papelotes. Tentou afastá-lo, cogitou de enfiá-lo numa clínica, e acabou descobrindo que a família dele estava mais preocupada com ela, que com a coca. Largou mão, e o Vitinho foi ladeira abaixo, auto-destrutivo como só filhinhos-de-papai sabem ser.
- Hoje, não agüentei. Mandei que parasse de ameaçar e enfiasse logo uma bala na testa. Ele chorou. Apontou a arma para mim, e chorou com ódio. Eu dei as costas e saí sem pegar nada. Só a bolsa. (E o lenço, pensei eu. O lenço!). Passei a manhã no Iguatemi e, na hora do almoço, descobri que o Vito cancelou meus cartões. Paguei o almoço com o dinheiro que tinha e, com o resto, decidi pegar um táxi até o Fórum, para procurar ajuda. Entrei na primeira sala que me indicaram, contei minha história e perguntei se podiam me ajudar. Foi assim que eu conheci o Dr. Oliveira e foi assim que ele me indicou o seu escritório. Ainda bem que deu para vir a pé.
De fato, o Oliveira era da primeira vara, e sua sala ficava de frente para o corredor. É um cara solícito, que não nega ajuda, nem informação. Nem mesmo a advogados. Era natural que o apontassem para uma figura como ela.
O caso parecia bom. Mão no queixo, sem falar mais nada (o silêncio, nos detetives, indica a ruminação de um cérebro superior), pesquisei o nome do drogado no Google. A tela, virada para mim e de costas para ela, mostrou no primeiro registro uma reportagem da Exame: o cara era de uma linhagem de banqueiros, que negou o DNA para abrir uma ponto-com, com a qual confirmou o DNA, ganhando alguns milhões, em menos de dois anos. E o maldito, que tinha pouco mais de trinta, aparecia na fotografia da reportagem como um jogador de pólo, bronzeado e musculoso, num termo evidentemente feito su misura. Curioso que outro registro do Google indicasse a cidade de Vítor Meireles, no Paraná.
- Quando se casaram?
- Há dois anos e sete meses.
- Filhos?
- Não.
- Separação total?
- Hã?
- Assinou algum pacto antenupcial? Fez trato de divisão de bens?
- Não, não. A família dele queria, mas ele não aceitou. Casamos com separação parcial.
- Tem a certidão aí?
- Não, só peguei a bolsa.
- ...
- O que faço?
A pergunta não era um pedido. Ela esperava ordens diretas, não ajuda. Queria conselho, não caridade.
- Onde moram?
- Vila Nova Conceição.
- Apartamento dos pais?
- Não, dele: compramos há um ano, mais ou menos. Assinei a escritura junto.
- E carros?
- Uma Mercedes-benz duas portas, não sei o modelo direito. E uma Porsche...
- Cayenne?
- Cayenne.
Deus. Obrigado Oliveira, obrigado Oliveira, obrigado Oliveira. Expliquei a ela o que faríamos: separação de corpos e arrolamento dos bens, logo amanhã. Separação judicial litigiosa (sempre bom adjetivar as causas para a clientela; impressiona), acusando-o de ser drogado. Pedido de pensão de pelo menos uns dez mil, provisórios. E, no fim, metade do patrimônio adquirido depois do casamento. Ela não pareceu se animar. Pareceu mais aliviada, só.
- E agora?
- Como assim?
- E agora, hoje, agora. O que faço? Para onde vou?
- Seu pai está no Paraná? Casa de uma amiga?
- Meu pai faleceu o ano passado. Aqui só tenho amigas que são mulheres ou namoradas dos amigos dele.
- Parentes, nenhum?
- Em São Mateus, duas tias. Mas como faço para chegar lá? E não preciso estar aqui, para o processo?
- Hotel?
- Pagar com o quê?
Pensei, claro, no meu apartamento, na São Luis. Mas, não. Precisava de dinheiro, para terminar de pagar a reforma do escritório; não era a hora de me envolver com clientes tão promissoras. Além disso, sempre tenho vergonha de levar mulheres interessantes ao apartamento – o prédio só tem gays e velhinhos, e é meio estranho, mesmo, que eu more sozinho, ali. Só o preço e a comodidade de chegar no escritório a pé, explicam. Não, eu não sou gay. Nem velhinho.
- Faz assim. Te empresto uns quinhentos reais, você vai a um hotel. Tem um Fórmula Um, na Nove de Julho, com diária de mais ou menos setenta reais.
Perguntou, ficando um pouco vermelha, e com a voz quase trêmula, mas firme e digna, se não podia ser uns dois mil. Tinha que comprar roupas, coisas de farmácia, tudo. E pegar táxi.
- Claro.
Pedi à Diva que sacasse um cheque do escritório. Ela me chamou para fora da sala e, gesticulando como um juiz de futebol, berrou o mais baixo que pôde:
- Vai dar o dinheiro para essa vagabunda? Tem que pagar o sofá e as poltronas na quarta-feira! E o meu salário, que não vejo faz dois meses?
- Saque o dinheiro. E rápido. É investimento. Você sabe que eu não erro, nunca. Vai.
- Mas...
- Vai! Apontei a porta com as sobrancelhas e os olhos bem abertos. Cara de chefe.
Depois de entregar o dinheiro – ela fez questão de assinar um recibo, para debitar do que recebesse do Vitinho – e depois que ela foi embora, prometendo me ligar do hotel para passar o número, expliquei o caso à Diva, que me irritou, garantindo que era golpe.
Quando, enfim, também a Diva foi embora, batendo os saltinhos no corredor para mostrar que estava brava, apaguei as luzes da sala, pus uma dose de Knockando num copo com duas pedras e invoquei o Frank. Devia ter percebido que era um presságio: We’re drinking my friend, to the end of a brief episode… So make it one for my baby, and one more for the road.




