Histórias do Tarô.
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Né, Kassab?

Comecei o ano como testemunha auditiva (auricular?) de uma bonita manifestação dos donos-de-caminhão-de-som, que reverberou pelo Anhangabaú vazio, toda a tarde. Os caras reclamam de um projeto de lei do vereador Arselino (seria Arselynn, na Inglaterra?), que proíbe caminhões-de-som e locutores-de-loja pela cidade.

Acho bom o projeto, claro – anunciar pamonha fresquinha, vender morango de Atibaia, pagar trio elétrico para fazer propaganda e botar um palhaço na rua da Quitanda para mexer com as gutchinhas não são, exatamente, serviços de utilidade pública, que justifiquem perturbar o sossego do cidadão-contribuinte.

Mas o cidadão-contribuinte aqui ficou a tarde inteira ouvindo os caras chamarem o Kasseb (Kassab?). Começaram chamando o “excelentíssimo senhor prefeito”, “o senhor prefeito” e foram ladeira abaixo. Chegaram até “Ô Kassab, desce aí Kassab!” E nada do Kasseb, Kassab.

Aí, passaram o microfone para um dono-de-caminhão-de-som mais exaltado (e que não deve ter empunhado um microfone antes, senão nos caraoquês dos botecos), que ameaçou: "Ó, eu vou perder o ganha-pão, e vai aumentar a criminalidade! É mais assaltante na rua!"

Com isso, acho que os homens do Kasseb, Kassab, se chatearam, porque o cara berrou, mais revoltado, no microfone: “Ah é? Estão metendo multa, é? Por que, hein? É do CET, é? Cês ganham um salário de m* (o asterisco é meu. Ele falou “m*”, mesmo) e o Kassab lá na praia curtindo uma! Vão se danar! Pode multar! Pode multar! Seus filha-da-p* (ele disse filha-da-p*, mesmo; asterisco da redação).

Eu não vi a cena, apenas ouvi, mas acho que um outro dono de caminhão-de-som pegou outro microfone, e pediu para o companheiro maneirar, que-que-é-isso, palavrão não pode, não. E ficaram num diálogo, com os dois microfones ribombando pelo Vale, um pedindo desculpa para o outro, e “estamos aqui para reivindicar, não para xingar” e “é, eu me irritei”, "tudo bem", "é a democracia", "pois é".

Aí falaram mal do Arselynno, “que é do teu partido, né, Kassab”. (Alguém avisou que era do PT). “Ah, é do PT, é? Do PSB, do PT, tudo igual! Tudo sem-vergonha!”. (Sic). “Você, Kassab, subiu no caminhão-de-som na campanha, né, Kassab? Agora quer proibir, né, Kassab?” (Devem ter avisado que o Kassab era vice, não fez campanha). “Então quem subiu foi teu chefe, né, Kassab. Mas ele ce não proíbe, né, Kassab?”

E o cara foi se irritando, e "né, Kassab?" isso, "né, Kassab?" aquilo. E deve ter enchido mais alguém, porque o cara começou a se esgoelar mesmo: “Agora tá multando por quê? Pode multar! Tá multando por quê? Que lei do silêncio, mané?! Que Pissiu o quê, mané! Vem aqui que eu...”

Devem ter desligado o som do carro dele no meio da frase. Ou então ele jogou o microfone em alguém. O do outro microfone não tocou no assunto, mas mandou o Prefeito anotar: na sexta-feira eles voltam, ah, voltam. E vão parar São Paulo!

Ainda bem que eu vou viajar. Né, Kassab?