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fevereiro 28, 2007
Fuga.

mugshot_f copy.jpg

No dia seguinte, nem um telefonema. Depois veio o fim-de-semana e só na segunda-feira eu tentei o celular anotado numa “ficha de cadastro” que a Diva, sem me dizer, a tinha feito preencher. A caixa postal não tinha sequer recado personalizado e eu ouvi umas quarenta vezes, no curso daquela rápida segunda-feira, o número do telefone ditado eletronicamente pela secretária da Tim.

Na ficha, só constava o nome completo – Maria Antonia Retzlav Meirelles – escrito em letra quase masculina, de tão inclinada, e o número do celular.

A Diva, para meu maior suplício, não me aporrinhou como eu esperava. Não disse uma palavra, não fez careta, não deu sorrisinhos laterais, nada. Quando cheguei, já estava atrás de sua mesa e de seu monitor, fingindo-se ocupada com alguma planilha. Assim passou a manhã inteira. Depois, saiu para almoçar avisando-me em voz alta, sem nem entrar na sala, e passou a tarde digitando alguma coisa interminável e fofocando pelo telefone.

Eu poderia agüentar os eu-te-disses, os homens-são-todos-iguais, os não-pode-ver-um-rabo-de-saias, tudo. Estava até preparado para contra-argumentar. Mas aquela cara de nuvem, o dia inteiro, era demais para a minha limitadíssima paciência.

No fim da tarde, desistindo do celular da Maria depois de entupir-lhe a caixa postal com o quadragésimo recado, chamei a Diva, aos berros, para uma compensatória descompostura. Mas acabei adiando a bronca, sine die, boquiaberto que fiquei ao medir a Diva – como, aliás, fazia de hábito, à sua frente e, especialmente, às suas costas.

Com todo o seu estudado desprezo durante o dia, acabei não a vendo de corpo inteiro, só o rosto esfíngico, atrás do monitor. Agora, u-lá-lá: ela tinha dispensado o habitual tailleur para se espremer num vestido preto justo, justíssimo, a ponto de dar a certeza de que também a roupa de baixo fora dispensada – aliás, a roupa de baixo de cima, e a roupa de baixo de baixo.

Eu acho que ainda não disse, mas o corpo da Diva justifica o patronímico (que é como os advogados chamamos o nome, mesmo sabendo que quer dizer sobrenome). Está mais para baixa que para mediana, o que ela compensa usando sapatos altos e pretos, definindo os musculinhos das suas eternamente bronzeadas panturrilhas. Subindo, há joelhos bem azeitados e, naquela segunda-feira, descobri coxas de ciclista. Não de triatleta, perceba: de ciclista, apenas. A circunferência da sua cintura deve coincidir com a da minha cabeça – e eu não sou cearense. Não há barriga. E sobre essa não-barriga, dois glóbulos milagrosamente pênseis lançam sombras semi-circulares.

Quando a Diva vai, todas as cabeças de todos os office-boys do Centro vão, incontrolavelmente, atrás. A minha ficou momentaneamente nocauteada, mas antes da contagem final, consegui falar alguma coisa:

- Aquela ficha de cadastro, você sempre manda seus seios?
- Ahn?
- Você sempre manda preencher aquela ficha de cadastro?
- Ah, não. Está falando daquela Zinha da quinta-feira, é? Claro que não. Fiz a ficha no Excel enquanto você estava sendo conversado. Pedi que preenchesse a ficha para saber o nome completo, só isso. Fiquei até espantada quando vi o celular...
- E para quê você queria o nome completo?
- Para informar a Delegacia, claro. Já mandei, na sexta mesmo, uma cópia autenticada da ficha.
- Como assim? Por quê? Para quem? Para quê? Que raio...
- Simples: achei que a polícia ia se interessar por uma falsária.
- Ahn?
- Falsária! Passou a sexta-feira e o sábado distribuindo as notas falsas que recebeu de você.
- Notas falsas?

Minhas orelhas pegaram fogo. Ao invés de sacar o cheque, como eu mandara, a Diva tinha pego as notas falsas que eu guardava no cofre, desde o caso do argentino que apareceu boiando no Tietê, dias depois de me entregar aqueles maços. O fato é que a Diva, maledetta, tinha transformado a minha musa em objeto de mugshot. Naquela altura devia estar...

- Já está presa, não é?
- Acho que sim. Parece que andou gastando o seu dinheiro na Versace da Bela Cintra.

Enquanto falava, foi chegando perto da minha mesa, roçando as coxas de ciclista, porque o vestido não permitia nenhuma distância entre elas. Tirou os óculos e soltou o coque, esparramando sua cabeleira lisa em todo o meu campo de visão.

- Também gastou algum no Le Chef Rouge. Não é boba, a menina.
- Aahn, tá – comentei, já virando para o teclado e ajustando o player no canto da tela (defensivo, defensivo.). – Ligue já para o James – (a frase exigiu algum esforço fonético, porque "é Jãmes, mesmo", como ele sempre diz, irritado quando o chamam "Djeimes").

Ela perdeu o rebolado. Não esperava esse contra-ataque rápido. O James é outro que estudou comigo e com o Oliveira. Era o mais malandro da turma - e éramos cento e vinte e cinco, só no noturno. Agora é o delegado titular da 78, para onde, decerto, a Diva tinha ligado. Talvez não fosse tarde demais.

Percebendo que eu ainda não tinha terminado com a Maria Antonia, a Diva botou os óculos, rodopiou e saiu batendo a minha porta. Minha cafajestice ainda teve tempo de dar uma última conferida na capacidade de resistência do tubinho preto aos ângulos mais ousados da anatomia que encapava.

O James me confirmou que a Diva tinha entregado a moça, e que ele mandou dois investigadores para o Fórmula Um da Nove de Julho. Uma Maria Antonia Retzlav (sem o Meirelles) tinha se registrado, mas tinha pago a conta pouco antes dos tiras chegarem e saído sem pedir táxi, só com uma maletinha de rodas, tipo aeromoça. “Fugiu, desapareceu, escafedeu-se”, exagerou o James. Seus tiras recolheram duzentos reais de notas feitas em Mendoza, no caixa do hotel e, certamente, não tinham ido além disso.

Desliguei e aumentei o volume do iTunes. O Frank, de novo, avisava:

Maybe when I've done it all, seen all there is to see,
I'll find out I still cannot run away from me...

Mas eu nunca dei bola para presságios.

fevereiro 23, 2007
Santo Expeditíssimo.

stoex.jpg

fevereiro 22, 2007
Hello, Figments.

(E espirros às vezes vêm assim, em série. Tome mais um (se a teclas saírem um poico cpnfsusas é qeu o teclaadoo ficcoouu meiooo pegaajooosooo)).


dreamfinder.jpg

O Jorge Nobre (a quem devo, não nego, pago quando puder, um meme) me pediu que eu dissesse como trato meus leitores.

Ah, é simples - trato-os como aqueles amiguinhos imaginários da infância dos outros (eu, damn, nunca tive amigos imaginários). Brinco com eles, converso com eles, vou para casa com eles, almoço e janto com eles. Não vou dizer que durmo com eles, porque não durmo com homens e minha mulher lê este blog (né, nenê?),de modos que não seria saudável se eu dissesse que durmo com leitoras, mesmo que em sentido evidentemente figurado.

Mas, bobagens à parte, acho que leio a grande maioria dos meus três ou quatro leitores (Jorge Nobre included, claro). O outro, não. Mas só porque não tem blog. Faz um blog aí, pô!

A-a-tchuuu.

Posts são como espirros: quando você sente um daqueles bons chegando, o que vale mesmo é ser escandaloso, e deixar todos os germes se espalharem numa anti-higiênica erupção vulcânica. Não dá para deixar para depois.

Pois os melhores espirros, agora sei, me vinham durante as horas de trabalho. Sempre que podia, botava para fora, tendo aquele arrepiozinho bom, quando via aqueles perdigotos* fazendo uma chuvinha dançante contra o sol da tarde.

Mas faz umas duas semanas que, não sei exatamente como, todos os IPs da minha rede foram bloqueados pelo servidor do Apostos. Não pego mais nenhum site que comece com "www.apostos.com", nem nas ondas curtas. Deve ser obra divina - alguém lá em cima quer quer eu seja um advogado mais dedicado, sem paradas técnicas para recuperar a sanidade.

E faço aqui a promessa para São Longuinho, para Santo Expedito e para São Judas: se me desbloquearem o IP, juro que só posto depois de esvaziar a caixa de entrada do Outlook e de terminar todos os prazos do dia.

É que não agüento mais segurar os espirros e terminar com uma meleca na mão...

_____________
* eu sei que perdigoto, tecnicamente, é de saliva, mas 'ranho' não teria o mesmo charme.

fevereiro 09, 2007
Burguesinho, V.

Já tinha incorporado o modo de ser e de pensar de quem é de esquerda, e achava, de fato, bacana. Eu sobrevoava, com minhas intenções angelicais, o pragmatismo rude dos burguesinhos – sim, agora era eu que chamava todos os que não me agradavam de burguesinhos: o cara vinha de carro? Tirava boas notas? Era popular? Burguês. A menina usava roupa de grife? Não tirava boas notas? Não dava bola para mim? Burguesinha.

A única que eu preservava desses julgamentos era a Dona Sônia. Até hoje, note, não consigo escrever só “Sônia”. O “dona” tem que vir antes, como título de sua nobreza, como registro de sua propriedade. Dona Sônia, dona.

Um dia, me desesperei: era aquele chove-não-molha sem-fim, e minhas olheiras estavam cada vez mais fundas, de tanto andar com as exigentes gordotas. E eu já estava no final do terceiro ano; não teria muitas oportunidades de me aproximar da Dona Sônia.

Fumei haxixe pela primeira vez, decidido a ir à casa dela.

Era final de tarde; toquei a campainha. Não sei se passou muito tempo, porque eu já tinha fumado o negócio, e a noção de tempo estava um pouco vaga. Mas logo – ou no espaço de tempo que pareceu “logo” – ela veio à porta, vestida como quem está pronta para sair. Lembro da decepção, porque a imaginava abrindo à porta com roupas caseiras, tinha a subconsciente expectativa de vê-la com alguma intimidade desprevenida.

Pedi para entrar. Sem perguntar nada, ela me guiou até a cozinha. Quando já estávamos sentados, com duas xícaras de café na mesa, foi a Professora, não a mulher, que perguntou:

- O que há com seus olhos, vermelhos assim? Não tem dormido?

Era a linha que teria pedido a Deus, se tivesse alguma fé, naquela época. Para evitar o sorriso, olhei firme para a xícara, que segurava com as duas mãos:

- Não, não durmo. Só penso na senhora, Dona Sônia. Tudo o que faço, Dona Sônia, é pela senhora, Dona Sônia, Dona Sônia.

E sem querer, os olhos vermelhos produziram lágrimas rápidas, que escorreram até a minha camisa e me deram uma infantil coriza, que foi o prenúncio da maior vergonha da minha incipiente vida romântica – a Dona Sônia fez o que nenhuma mulher tem o direito de fazer com quem confessa esses amores violentos: foi simpática, maternal. E achou graça.

Levantei, enxugando o nariz no ombro, ofendido.

- Você é uma burguesinha. Pode até achar que fala e age no interesse da classe operária. Mas é uma burguesinha.

Com aquela linha dramática, fugi da cozinha, errei a porta e acabei no banheiro. Voltei rápido ao corredor, e fui embora, batendo a porta e chutando o portão.

fevereiro 05, 2007
Família na praia.

Deixam-me sozinho aqui, e vejam só o que apronto:

emma.jpg