
No dia seguinte, nem um telefonema. Depois veio o fim-de-semana e só na segunda-feira eu tentei o celular anotado numa “ficha de cadastro” que a Diva, sem me dizer, a tinha feito preencher. A caixa postal não tinha sequer recado personalizado e eu ouvi umas quarenta vezes, no curso daquela rápida segunda-feira, o número do telefone ditado eletronicamente pela secretária da Tim.
Na ficha, só constava o nome completo – Maria Antonia Retzlav Meirelles – escrito em letra quase masculina, de tão inclinada, e o número do celular.
A Diva, para meu maior suplício, não me aporrinhou como eu esperava. Não disse uma palavra, não fez careta, não deu sorrisinhos laterais, nada. Quando cheguei, já estava atrás de sua mesa e de seu monitor, fingindo-se ocupada com alguma planilha. Assim passou a manhã inteira. Depois, saiu para almoçar avisando-me em voz alta, sem nem entrar na sala, e passou a tarde digitando alguma coisa interminável e fofocando pelo telefone.
Eu poderia agüentar os eu-te-disses, os homens-são-todos-iguais, os não-pode-ver-um-rabo-de-saias, tudo. Estava até preparado para contra-argumentar. Mas aquela cara de nuvem, o dia inteiro, era demais para a minha limitadíssima paciência.
No fim da tarde, desistindo do celular da Maria depois de entupir-lhe a caixa postal com o quadragésimo recado, chamei a Diva, aos berros, para uma compensatória descompostura. Mas acabei adiando a bronca, sine die, boquiaberto que fiquei ao medir a Diva – como, aliás, fazia de hábito, à sua frente e, especialmente, às suas costas.
Com todo o seu estudado desprezo durante o dia, acabei não a vendo de corpo inteiro, só o rosto esfíngico, atrás do monitor. Agora, u-lá-lá: ela tinha dispensado o habitual tailleur para se espremer num vestido preto justo, justíssimo, a ponto de dar a certeza de que também a roupa de baixo fora dispensada – aliás, a roupa de baixo de cima, e a roupa de baixo de baixo.
Eu acho que ainda não disse, mas o corpo da Diva justifica o patronímico (que é como os advogados chamamos o nome, mesmo sabendo que quer dizer sobrenome). Está mais para baixa que para mediana, o que ela compensa usando sapatos altos e pretos, definindo os musculinhos das suas eternamente bronzeadas panturrilhas. Subindo, há joelhos bem azeitados e, naquela segunda-feira, descobri coxas de ciclista. Não de triatleta, perceba: de ciclista, apenas. A circunferência da sua cintura deve coincidir com a da minha cabeça – e eu não sou cearense. Não há barriga. E sobre essa não-barriga, dois glóbulos milagrosamente pênseis lançam sombras semi-circulares.
Quando a Diva vai, todas as cabeças de todos os office-boys do Centro vão, incontrolavelmente, atrás. A minha ficou momentaneamente nocauteada, mas antes da contagem final, consegui falar alguma coisa:
- Aquela ficha de cadastro, você sempre manda seus seios?
- Ahn?
- Você sempre manda preencher aquela ficha de cadastro?
- Ah, não. Está falando daquela Zinha da quinta-feira, é? Claro que não. Fiz a ficha no Excel enquanto você estava sendo conversado. Pedi que preenchesse a ficha para saber o nome completo, só isso. Fiquei até espantada quando vi o celular...
- E para quê você queria o nome completo?
- Para informar a Delegacia, claro. Já mandei, na sexta mesmo, uma cópia autenticada da ficha.
- Como assim? Por quê? Para quem? Para quê? Que raio...
- Simples: achei que a polícia ia se interessar por uma falsária.
- Ahn?
- Falsária! Passou a sexta-feira e o sábado distribuindo as notas falsas que recebeu de você.
- Notas falsas?
Minhas orelhas pegaram fogo. Ao invés de sacar o cheque, como eu mandara, a Diva tinha pego as notas falsas que eu guardava no cofre, desde o caso do argentino que apareceu boiando no Tietê, dias depois de me entregar aqueles maços. O fato é que a Diva, maledetta, tinha transformado a minha musa em objeto de mugshot. Naquela altura devia estar...
- Já está presa, não é?
- Acho que sim. Parece que andou gastando o seu dinheiro na Versace da Bela Cintra.
Enquanto falava, foi chegando perto da minha mesa, roçando as coxas de ciclista, porque o vestido não permitia nenhuma distância entre elas. Tirou os óculos e soltou o coque, esparramando sua cabeleira lisa em todo o meu campo de visão.
- Também gastou algum no Le Chef Rouge. Não é boba, a menina.
- Aahn, tá – comentei, já virando para o teclado e ajustando o player no canto da tela (defensivo, defensivo.). – Ligue já para o James – (a frase exigiu algum esforço fonético, porque "é Jãmes, mesmo", como ele sempre diz, irritado quando o chamam "Djeimes").
Ela perdeu o rebolado. Não esperava esse contra-ataque rápido. O James é outro que estudou comigo e com o Oliveira. Era o mais malandro da turma - e éramos cento e vinte e cinco, só no noturno. Agora é o delegado titular da 78, para onde, decerto, a Diva tinha ligado. Talvez não fosse tarde demais.
Percebendo que eu ainda não tinha terminado com a Maria Antonia, a Diva botou os óculos, rodopiou e saiu batendo a minha porta. Minha cafajestice ainda teve tempo de dar uma última conferida na capacidade de resistência do tubinho preto aos ângulos mais ousados da anatomia que encapava.
O James me confirmou que a Diva tinha entregado a moça, e que ele mandou dois investigadores para o Fórmula Um da Nove de Julho. Uma Maria Antonia Retzlav (sem o Meirelles) tinha se registrado, mas tinha pago a conta pouco antes dos tiras chegarem e saído sem pedir táxi, só com uma maletinha de rodas, tipo aeromoça. “Fugiu, desapareceu, escafedeu-se”, exagerou o James. Seus tiras recolheram duzentos reais de notas feitas em Mendoza, no caixa do hotel e, certamente, não tinham ido além disso.
Desliguei e aumentei o volume do iTunes. O Frank, de novo, avisava:
Maybe when I've done it all, seen all there is to see,
I'll find out I still cannot run away from me...
Mas eu nunca dei bola para presságios.







