Já tinha incorporado o modo de ser e de pensar de quem é de esquerda, e achava, de fato, bacana. Eu sobrevoava, com minhas intenções angelicais, o pragmatismo rude dos burguesinhos – sim, agora era eu que chamava todos os que não me agradavam de burguesinhos: o cara vinha de carro? Tirava boas notas? Era popular? Burguês. A menina usava roupa de grife? Não tirava boas notas? Não dava bola para mim? Burguesinha.
A única que eu preservava desses julgamentos era a Dona Sônia. Até hoje, note, não consigo escrever só “Sônia”. O “dona” tem que vir antes, como título de sua nobreza, como registro de sua propriedade. Dona Sônia, dona.
Um dia, me desesperei: era aquele chove-não-molha sem-fim, e minhas olheiras estavam cada vez mais fundas, de tanto andar com as exigentes gordotas. E eu já estava no final do terceiro ano; não teria muitas oportunidades de me aproximar da Dona Sônia.
Fumei haxixe pela primeira vez, decidido a ir à casa dela.
Era final de tarde; toquei a campainha. Não sei se passou muito tempo, porque eu já tinha fumado o negócio, e a noção de tempo estava um pouco vaga. Mas logo – ou no espaço de tempo que pareceu “logo” – ela veio à porta, vestida como quem está pronta para sair. Lembro da decepção, porque a imaginava abrindo à porta com roupas caseiras, tinha a subconsciente expectativa de vê-la com alguma intimidade desprevenida.
Pedi para entrar. Sem perguntar nada, ela me guiou até a cozinha. Quando já estávamos sentados, com duas xícaras de café na mesa, foi a Professora, não a mulher, que perguntou:
- O que há com seus olhos, vermelhos assim? Não tem dormido?
Era a linha que teria pedido a Deus, se tivesse alguma fé, naquela época. Para evitar o sorriso, olhei firme para a xícara, que segurava com as duas mãos:
- Não, não durmo. Só penso na senhora, Dona Sônia. Tudo o que faço, Dona Sônia, é pela senhora, Dona Sônia, Dona Sônia.
E sem querer, os olhos vermelhos produziram lágrimas rápidas, que escorreram até a minha camisa e me deram uma infantil coriza, que foi o prenúncio da maior vergonha da minha incipiente vida romântica – a Dona Sônia fez o que nenhuma mulher tem o direito de fazer com quem confessa esses amores violentos: foi simpática, maternal. E achou graça.
Levantei, enxugando o nariz no ombro, ofendido.
- Você é uma burguesinha. Pode até achar que fala e age no interesse da classe operária. Mas é uma burguesinha.
Com aquela linha dramática, fugi da cozinha, errei a porta e acabei no banheiro. Voltei rápido ao corredor, e fui embora, batendo a porta e chutando o portão.




