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março 26, 2007
Run, Forest, run.

E não é que decidi, decidido está, e saí correndo? Pois é, assim, sem mais avisos: no sábado de manhã, desci e fui me enfiar na esteira do condomínio. Mas duas delas estavam ocupadas por gente ainda menos atlética do que eu, e deu vergonha de ocupar a terceira. Cumprimentei os balofos vizinhos, e fui andar na rua. Eram 7:10, quando liguei a seleção aeróbica no iPod, atravessando o portão e cumprimentando muito alto o porteiro, que deve ter achado graça mas, em contrição hierárquica, disfarçou o sorriso irônico.

Fui a pé até o Ibirapuera – comecei a marchar um pouco antes, na ladeira da Conselheiro Rodrigues Alves, perto do Dante Pazzanese, mas as árvores são bem bonitas, ali. E de manhã, sem carros passando, parece até um lugar decente, se você não se incomodar com as tranqueiras que os mendigos acumulam e deixam ali, perto da Tutóia.

Ah, sofri estoicamente, no Parque. Sem desistir, fui ultrapassado por diversos grupos de semi-atletas uniformizados por personal trainers; por mocinhas; por velhinhos; por inúmeras japonesinhas e até por um cara com perna mecânica. Só consegui ultrapassar um senhor grisalho, visivelmente afetado por um AVC, que quase me deu uma cabeçada, de tão torto que ia. Ou talvez tenha ficado chateado, e tentou me acertar, não sei.

Incontido nessa euforia aeróbica, marchei para fora do Parque, na saída da Quarto Centenário e fui ladeando a grade, tentando escapar do sol, que já transformava em pó o honesto suor do meu rosto. Vi que tinha uma ruinha, ali, chamada San Giusto, ou coisa parecida. É daquelas com cancela e decidi trotar por ali, para ver como vivem os ricos & famosos. O velhinho que fica ali, tomando conta da cancela, deu um meio-sorriso premonitório, que eu tratei de desprezar, embriagado pela atlética adrenalina, como estava naquela hora.

Já me entediava com o aspecto boco-moco e classe média da rua quando na esquina avistei uma senhora, com uma coleira na mão e o olhar fixo em alguma coisa que eu não ainda podia ver. Mais à frente, uma doméstica, de avental, também mirava um ponto ainda escondido pela casa do meu lado direito.

Naquele momento, como num filme de Sergio Leone, as duas se viraram e me olharam, boquiabertas, os beiços balançando em câmera lenta, como se fossem falar alguma coisa. Pude ver, com nitidez digital, a sincronia com que ambas também abandonaram a minha imagem rotunda e atlética e voltaram a encarar o ponto fixo, onde eu agora distinguia duas patas negras e douradas, com as garras riscando o asfalto quente.

Num interminável slow-motion, sem conseguir controlar o meu orgulhoso jogging, vi quando a cabeçorra do rottweiler despegou-se de alguma coisa no alto de uma árvore e me encarou. Os pingos de baba densa e branca ficaram suspensos no ar, que trouxe um grunhido capaz de fazer o Cérbero parecer um bichon frisée. O ruído era assustador, a ponto de eu ouvi-lo sobre a Cavalgada das Valquírias, que o iPod, irônico, começou a tocar naquele instante.

Consegui, enfim, controlar minhas pernas e dei uma meia volta lentíssima, sentindo as pedrinhas do asfalto pularem de susto nos meus calcanhares aquilíneos.

O tempo retomou o curso normal – ou assumiu um abençoado fast-forward – e eu bati o recorde dos cem metros rasos quatro vezes seguidas. O velhinho gargalhava, sem alguns dentes, enquanto eu vencia a cancela, não tão heroicamente, pela parte de baixo.

O canzarrão estancou na entrada da rua e voltou para o seu território sagrado. Fiz uma breve prece de agradecimento a Pavlov, e atribuí a fúria daquele Cujo tropical ao odor másculo da minha testosterona, despertada pelo viril exercício matinal.

A volta para casa, foi bem mais tranqüila. E eu ainda pedi para o taxista me deixar na padaria da esquina, para caminhar o resto do caminho e não passar vergonha com o mordaz porteiro. Não contava que o zelador estivesse, justo àquela hora, na padaria, só para me dar o flagrante. Aproveitei para comprar uns merecidos pãezinhos.

E tem gente que acha que correr emagrece. Pfui.

março 19, 2007
Sacramentum Caritatis.

Rara vez em que cedi a um impulso diário, mandei um e-mail ao Pedro, que justifica o nome não por negar três vezes, mas por ser sólido como o quê. É uma solidez que vem da profundidade; a fácil metáfora das boas raízes poucas vezes se encaixa tão bem.

O que me moveu foi o jeito como trataram a exortação papal e a terrível má-vontade com que os assuntos da Igreja têm sido tratados. Deu-me o Pedro, além de adjetivo caridoso, espaço na sua própria casa e encerrou uma polêmica que só aconteceu na internet, prometendo, para mais tarde, falar sobre a imagem da Igreja nestes dias. Esperemos.

Enquanto isso, aproveitei para fazer um daqueles artiguetes que vão para o jornal nepótico.

Ah – a caixa de comentários voltou.

Sacramentum Caritatis

Li, como todo mundo, as notícias sobre a exortação papal. O tom, como tem sido sempre com o Papa Bento XVI, é que a Igreja está recrudescendo as suas posições, que está sendo mais conservadora, e que perderá fiéis. Isso ficou bastante claro no destaque que deram para a afirmação, feita na exortação, “que o segundo casamento é uma praga social”.

A idéia que transmitiram com a notícia foi a de que a Igreja, de alguma maneira, despreza os segundos matrimônios e proscreve os envolvidos, julgando-os como se tivessem cometido um crime. O que transcreveram, da exortação, foi que o segundo casamento é “uma verdadeira praga do ambiente social.”

Teve gente, defensora da Igreja, que tentou explicar que não era praga, no original, mas chaga, tirando um pouco o peso da declaração. Mas é mais simples que isso – fui ver o texto, no site do Vaticano. E o parágrafo inteiro é este:

“Se a Eucaristia exprime a irreversibilidade do amor de Deus em Cristo pela sua Igreja, compreende-se por que motivo a mesma implique, relativamente ao sacramento do Matrimônio, aquela indissolubilidade a que todo o amor verdadeiro não pode deixar de anelar. (91) Por isso, é mais que justificada a atenção pastoral que o Sínodo reservou às dolorosas situações em que se encontram não poucos fiéis que, depois de ter celebrado o sacramento do Matrimônio, se divorciaram e contraíram novas núpcias. Trata-se dum problema pastoral espinhoso e complexo, uma verdadeira praga do ambiente social contemporâneo que vai progressivamente corroendo os próprios ambientes católicos. Os pastores, por amor da verdade, são obrigados a discernir bem as diferentes situações, para ajudar espiritualmente e de modo adequado os fiéis implicados.(92) O Sínodo dos Bispos confirmou a prática da Igreja, fundada na Sagrada Escritura (Mc 10, 2-12), de não admitir aos sacramentos os divorciados re-casados, porque o seu estado e condição de vida contradizem objetivamente aquela união de amor entre Cristo e a Igreja que é significada e realizada na Eucaristia. Todavia os divorciados re-casados, não obstante a sua situação, continuam a pertencer à Igreja, que os acompanha com especial solicitude na esperança de que cultivem, quanto possível, um estilo cristão de vida, através da participação na Santa Missa ainda que sem receber a comunhão, da escuta da palavra de Deus, da adoração eucarística, da oração, da cooperação na vida comunitária, do diálogo franco com um sacerdote ou um mestre de vida espiritual, da dedicação ao serviço da caridade, das obras de penitência, do empenho na educação dos filhos.”

Quem teve paciência de ler com atenção o parágrafo todo, percebeu que a Igreja condena o pecado, mas absolve os pecadores – como, aliás, devem fazer os verdadeiros cristãos.

Pouca diferença faz, por isso, se é praga, ou chaga – é um mal, e quanto a isso não pode haver dúvida: o segundo casamento implica, necessariamente, a destruição do primeiro. E, nessa destruição, vai a frustração do amor acabado em ódio (ou, pior, em indiferença), e vão, no mais das vezes, os filhos de embrulho, dilacerados irrecuperavelmente com o rompimento de suas próprias identidades e com a obrigação de uma escolha de Sofia, muitas vezes nos primeiros anos de suas vidas.

Não é cruel fazer uma mãe escolher com qual dos filhos viverá? E não é mais cruel – não é mesmo uma chaga, uma praga – fazer com que uma criança, um adolescente, um jovem, escolha com qual de seus pais ficará?

E a Igreja (quem leu o parágrafo inteiro, percebeu) não é insensível a isso: faz a recomendação mais dura, de que se façam eternos os casamentos, a despeito das vontades pontuais dos cônjuges, para evitar as seqüelas da separação. Mas também, diante do fato concreto da separação, recomenda o acolhimento do fiel “com especial solicitude”.

O que causa algum cansaço, e uma séria desesperança, é perceber a má vontade com que as coisas da Igreja são tratadas – salvo aquelas que vêm emolduradas por interesses político-sociais. E poucos, muito poucos, mesmo depois de dois mil anos, hesitam em atirar a primeira pedra.

março 13, 2007
Emma.

"Silly things do cease to be silly if they are done by sensible people in an impudent way. Wickedness is always wickedness, but folly is not always folly. It depends upon the character of those who handle it."

março 09, 2007
Back to business.

Estivemos fora do ar por pobremas ténicos.
Tivemos que sacrificar a caixa de comentários, para voltar à ativa.
Em breve (que é um período de tempo subjetivo), os comentários voltarão. Ou não.

março 03, 2007
Mirror, oh mirror.

Estou acostumado a me ver com gravatas.
Sempre que as ajeito, franzo o cenho, faço um ar grave, condizente com a idade, as responsabilidades etc..
É como se me advertisse: "mais de quarenta, olha lá, hein."
E apesar desse circunspecto controle, às vezes, sobretudo no espelho dos elevadores,um sorriso juvenil escapole e fala, sacana: "careca, careeeca!"