E não é que decidi, decidido está, e saí correndo? Pois é, assim, sem mais avisos: no sábado de manhã, desci e fui me enfiar na esteira do condomínio. Mas duas delas estavam ocupadas por gente ainda menos atlética do que eu, e deu vergonha de ocupar a terceira. Cumprimentei os balofos vizinhos, e fui andar na rua. Eram 7:10, quando liguei a seleção aeróbica no iPod, atravessando o portão e cumprimentando muito alto o porteiro, que deve ter achado graça mas, em contrição hierárquica, disfarçou o sorriso irônico.
Fui a pé até o Ibirapuera – comecei a marchar um pouco antes, na ladeira da Conselheiro Rodrigues Alves, perto do Dante Pazzanese, mas as árvores são bem bonitas, ali. E de manhã, sem carros passando, parece até um lugar decente, se você não se incomodar com as tranqueiras que os mendigos acumulam e deixam ali, perto da Tutóia.
Ah, sofri estoicamente, no Parque. Sem desistir, fui ultrapassado por diversos grupos de semi-atletas uniformizados por personal trainers; por mocinhas; por velhinhos; por inúmeras japonesinhas e até por um cara com perna mecânica. Só consegui ultrapassar um senhor grisalho, visivelmente afetado por um AVC, que quase me deu uma cabeçada, de tão torto que ia. Ou talvez tenha ficado chateado, e tentou me acertar, não sei.
Incontido nessa euforia aeróbica, marchei para fora do Parque, na saída da Quarto Centenário e fui ladeando a grade, tentando escapar do sol, que já transformava em pó o honesto suor do meu rosto. Vi que tinha uma ruinha, ali, chamada San Giusto, ou coisa parecida. É daquelas com cancela e decidi trotar por ali, para ver como vivem os ricos & famosos. O velhinho que fica ali, tomando conta da cancela, deu um meio-sorriso premonitório, que eu tratei de desprezar, embriagado pela atlética adrenalina, como estava naquela hora.
Já me entediava com o aspecto boco-moco e classe média da rua quando na esquina avistei uma senhora, com uma coleira na mão e o olhar fixo em alguma coisa que eu não ainda podia ver. Mais à frente, uma doméstica, de avental, também mirava um ponto ainda escondido pela casa do meu lado direito.
Naquele momento, como num filme de Sergio Leone, as duas se viraram e me olharam, boquiabertas, os beiços balançando em câmera lenta, como se fossem falar alguma coisa. Pude ver, com nitidez digital, a sincronia com que ambas também abandonaram a minha imagem rotunda e atlética e voltaram a encarar o ponto fixo, onde eu agora distinguia duas patas negras e douradas, com as garras riscando o asfalto quente.
Num interminável slow-motion, sem conseguir controlar o meu orgulhoso jogging, vi quando a cabeçorra do rottweiler despegou-se de alguma coisa no alto de uma árvore e me encarou. Os pingos de baba densa e branca ficaram suspensos no ar, que trouxe um grunhido capaz de fazer o Cérbero parecer um bichon frisée. O ruído era assustador, a ponto de eu ouvi-lo sobre a Cavalgada das Valquírias, que o iPod, irônico, começou a tocar naquele instante.
Consegui, enfim, controlar minhas pernas e dei uma meia volta lentíssima, sentindo as pedrinhas do asfalto pularem de susto nos meus calcanhares aquilíneos.
O tempo retomou o curso normal – ou assumiu um abençoado fast-forward – e eu bati o recorde dos cem metros rasos quatro vezes seguidas. O velhinho gargalhava, sem alguns dentes, enquanto eu vencia a cancela, não tão heroicamente, pela parte de baixo.
O canzarrão estancou na entrada da rua e voltou para o seu território sagrado. Fiz uma breve prece de agradecimento a Pavlov, e atribuí a fúria daquele Cujo tropical ao odor másculo da minha testosterona, despertada pelo viril exercício matinal.
A volta para casa, foi bem mais tranqüila. E eu ainda pedi para o taxista me deixar na padaria da esquina, para caminhar o resto do caminho e não passar vergonha com o mordaz porteiro. Não contava que o zelador estivesse, justo àquela hora, na padaria, só para me dar o flagrante. Aproveitei para comprar uns merecidos pãezinhos.
E tem gente que acha que correr emagrece. Pfui.




