Histórias do Tarô.
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Sacramentum Caritatis.

Rara vez em que cedi a um impulso diário, mandei um e-mail ao Pedro, que justifica o nome não por negar três vezes, mas por ser sólido como o quê. É uma solidez que vem da profundidade; a fácil metáfora das boas raízes poucas vezes se encaixa tão bem.

O que me moveu foi o jeito como trataram a exortação papal e a terrível má-vontade com que os assuntos da Igreja têm sido tratados. Deu-me o Pedro, além de adjetivo caridoso, espaço na sua própria casa e encerrou uma polêmica que só aconteceu na internet, prometendo, para mais tarde, falar sobre a imagem da Igreja nestes dias. Esperemos.

Enquanto isso, aproveitei para fazer um daqueles artiguetes que vão para o jornal nepótico.

Ah – a caixa de comentários voltou.

Sacramentum Caritatis

Li, como todo mundo, as notícias sobre a exortação papal. O tom, como tem sido sempre com o Papa Bento XVI, é que a Igreja está recrudescendo as suas posições, que está sendo mais conservadora, e que perderá fiéis. Isso ficou bastante claro no destaque que deram para a afirmação, feita na exortação, “que o segundo casamento é uma praga social”.

A idéia que transmitiram com a notícia foi a de que a Igreja, de alguma maneira, despreza os segundos matrimônios e proscreve os envolvidos, julgando-os como se tivessem cometido um crime. O que transcreveram, da exortação, foi que o segundo casamento é “uma verdadeira praga do ambiente social.”

Teve gente, defensora da Igreja, que tentou explicar que não era praga, no original, mas chaga, tirando um pouco o peso da declaração. Mas é mais simples que isso – fui ver o texto, no site do Vaticano. E o parágrafo inteiro é este:

“Se a Eucaristia exprime a irreversibilidade do amor de Deus em Cristo pela sua Igreja, compreende-se por que motivo a mesma implique, relativamente ao sacramento do Matrimônio, aquela indissolubilidade a que todo o amor verdadeiro não pode deixar de anelar. (91) Por isso, é mais que justificada a atenção pastoral que o Sínodo reservou às dolorosas situações em que se encontram não poucos fiéis que, depois de ter celebrado o sacramento do Matrimônio, se divorciaram e contraíram novas núpcias. Trata-se dum problema pastoral espinhoso e complexo, uma verdadeira praga do ambiente social contemporâneo que vai progressivamente corroendo os próprios ambientes católicos. Os pastores, por amor da verdade, são obrigados a discernir bem as diferentes situações, para ajudar espiritualmente e de modo adequado os fiéis implicados.(92) O Sínodo dos Bispos confirmou a prática da Igreja, fundada na Sagrada Escritura (Mc 10, 2-12), de não admitir aos sacramentos os divorciados re-casados, porque o seu estado e condição de vida contradizem objetivamente aquela união de amor entre Cristo e a Igreja que é significada e realizada na Eucaristia. Todavia os divorciados re-casados, não obstante a sua situação, continuam a pertencer à Igreja, que os acompanha com especial solicitude na esperança de que cultivem, quanto possível, um estilo cristão de vida, através da participação na Santa Missa ainda que sem receber a comunhão, da escuta da palavra de Deus, da adoração eucarística, da oração, da cooperação na vida comunitária, do diálogo franco com um sacerdote ou um mestre de vida espiritual, da dedicação ao serviço da caridade, das obras de penitência, do empenho na educação dos filhos.”

Quem teve paciência de ler com atenção o parágrafo todo, percebeu que a Igreja condena o pecado, mas absolve os pecadores – como, aliás, devem fazer os verdadeiros cristãos.

Pouca diferença faz, por isso, se é praga, ou chaga – é um mal, e quanto a isso não pode haver dúvida: o segundo casamento implica, necessariamente, a destruição do primeiro. E, nessa destruição, vai a frustração do amor acabado em ódio (ou, pior, em indiferença), e vão, no mais das vezes, os filhos de embrulho, dilacerados irrecuperavelmente com o rompimento de suas próprias identidades e com a obrigação de uma escolha de Sofia, muitas vezes nos primeiros anos de suas vidas.

Não é cruel fazer uma mãe escolher com qual dos filhos viverá? E não é mais cruel – não é mesmo uma chaga, uma praga – fazer com que uma criança, um adolescente, um jovem, escolha com qual de seus pais ficará?

E a Igreja (quem leu o parágrafo inteiro, percebeu) não é insensível a isso: faz a recomendação mais dura, de que se façam eternos os casamentos, a despeito das vontades pontuais dos cônjuges, para evitar as seqüelas da separação. Mas também, diante do fato concreto da separação, recomenda o acolhimento do fiel “com especial solicitude”.

O que causa algum cansaço, e uma séria desesperança, é perceber a má vontade com que as coisas da Igreja são tratadas – salvo aquelas que vêm emolduradas por interesses político-sociais. E poucos, muito poucos, mesmo depois de dois mil anos, hesitam em atirar a primeira pedra.