I.
As pessoas que conheço, e que acabam sabendo do meu pior hábito, teimam em querer me explicar os deletérios efeitos do álcool: é como se tentar fazer com que eu pare de beber fosse uma irresistível boa ação de escoteiro. Piores do que os que apelam para a didática médica, ou para as estatísticas da OMS, são os que posam de anjo da redenção.
Sempre digo a esses professores da virtude que o erro deles foi, justamente, parar de beber – talvez meio altinhos, não fossem assim, tão aborrecidos. Esse lugar-comum, claro, nunca funciona: chame um chato de chato e ele fará de tudo para provar que não é chato – o que o torna ainda mais chato.
O fato é que eu conheço, melhor do que ninguém, o que a fórmula CH3CH2OH faz aos organismos incautos: nas aulas de Medicina Forense, os velhos professores já diziam que é o verdadeiro soro da verdade. Que basta uma ampolinha, na veia, para fazer cantar o mais emudecido canário. In vino, veritas, não é?
É, sim. Por isso, entregando-se à garrafa como um Van Gogh sem talento, acabei criando o virtuoso hábito de dizer a verdade, por mais inconveniente que seja – característica, aliás, que não é exatamente uma vantagem, na minha profissão. Mas isso é uma outra estória.
Esta história não é uma estória – é um caso verídico, que se passou comigo, quando eu era jovem, abstêmio e materialista. E só confessei meu vício, aqui, para que tenham a certeza de que o que vou dizer it’s all truth, and nothing but the truth, so help me God.
Estava no início da carreira, e aceitava qualquer caso. Fazia separações litigiosas, despejos, inventários e, ocasionalmente, defendia um estelionatário aqui ou um falsário ali. Fugia, só, dos homicídios dolosos, mas não porque tivesse algum bloqueio moral, não: era covardia – eu não teria coragem de encarar um júri.
Meu escritório – na verdade, uma salinha, com mesa e telefone, que uma empresa de cobranças cedia, em torca de umas execuçõezinhas e pedidos de falência, contra os devedores mais renitentes – ficava num edifício velho, no centro da cidade. O pé-direito era alto, porque o prédio tinha sido construído quando ainda não existiam os móveis pré-fabricados, e as portas tinham que ser grandes, para passarem as enormes escrivaninhas em peça única, as cadeiras com espaldares estofados em couro e coisas assim. Mas a minha salinha, pós-moderna, tinha divisórias que iam até o teto, mesa de fórmica comprada na avenida do Estado e umas imitações baratas de cadeiras de executivos. O teto alto, as paredes nuas e a divisória interminável faziam o lugar ficar ainda mais alto, e eu ainda menor, naquele cubículo vertical.
Naquele lúgubre ambiente, a entrada dela, no final da tarde, foi o mais próximo que alguém poderia chegar de uma “entrada triunfal”: pela porta, que ela escancarou, fluía a luz amarela do plafon do corredor, contornando a sua silhueta com uma aura dourada, quase extraterrena. Seu rosto – foi a primeira coisa que notei – era ligeiramente assimétrico: o nariz um pouco mais para a esquerda de onde deveria estar. E esse era o seu único defeito. Os cabelos à la Chanel emolduravam um rosto de pele branca, com imensos olhos azuis ladeados pelos cílios negros mais compridos que eu já tinha visto. Vestia uma blusa branca, diáfana, que deixava entrever os contornos precisos de dois glóbulos milagrosamente pênseis, e uma calça jeans justa. Sandálias de couro cru e só: não trazia brincos, pulseria, relógio, gargantilha ou tornozeleira. Não tinha piercings nem tatuagens, embora já fossem razoavelmente comuns, naquela época – estávamos em 1995, mais precisamente no dia 12 de abril. Como eu sei? Simples – eu nunca, nunca, vou conseguir esquecer aquele dia.
II.
Depois de se apresentar – Íris Taumari, psicóloga – esticou sobre a mesa uma intimação para comparecer à 3ª Vara Criminal: interrogatório, para dali a dois dias. Enquanto pegava o papel, olhei de novo para o narizinho deslocado, tentando adivinhar onde ele se metera, para atrair uma ação penal.
Li a contra-fé. Artigo 283, do Código Penal. Respirei fundo e reclinei-me na cadeira, com as mãos entrelaçadas, mas os indicadores esticados, perto da boca. Esse gesto, constrito e pensativo, sempre dá um ar de seriedade ao que estou pensando (naquele instante: “Charlatanismo? Eu deixava ela me enganar à vontade...”). Consigo que os clientes reflitam sobre a gravidade da situação em que se meteram, e se preparem para a conta que eu estou prestes a apresentar.
Mas, daquela vez, não funcionou. A moça abriu um sorriso daqueles de fazer você conferir se a braguilha ficou aberta:
- Olha, não quero te enganar. Seria bobo mentir para o meu advogado. Eu não sou charlatã. Sou psicóloga e atendo casais, com problemas de relacionamento. Uma das minhas clientes é mulher de um delegado. Ele comete violências abomináveis com ela e ela tem uma dependência quase orgânica, dele. Eu a preparei para se separar, por quase dois anos. Ela também se preparou – contratou uma advogada e, assim que se sentiu forte o suficiente, saiu de casa e pediu a separação judicial. Eles eram casados com separação de bens, mas o delegado colocava no nome dela tudo o que comprava com dinheiro sujo. Ela acabou ficando com quase tudo que ele tinha, de um dia para o outro: carros, aplicações, apartamentos. Até um jet-ski. Ele me culpou pela separação e inventou essa história, como se eu tivesse enganado a mulher dele. Não sou charlatã. É isso, pronto.
Brigar com delegados nunca foi meu esporte favorito. Conhecia alguns até bons, mas nenhum confiável. Esse, com quem ela se metera, era filho de desembargador, e sua truculência, várias vezes absolvida pelos colegas do papai, já tinha sido motivo até de matéria na Veja. E eu sempre achei que psicólogas e psicoterapeutas em geral são espécies do gênero da charlatonice, a que pertenciam, no meu catálogo mental, os acupunturistas, as massagistas de reiki, os pais-de-santo, as cartomantes. Mas, antes que eu abrisse a boca:
- Só quero que me defenda, que garanta que vou ter um julgamento justo. Não pense que eu também não questione o que faço, que também não tenha dúvidas quanto à psicologia, quanto à validade da terapia. E não pense que tomo decisões no lugar de meus pacientes. Eles sabem o que querem e me dizem – às vezes não com palavras. Mas sempre descubro com absoluta certeza da vontade íntima deles, antes de indicar qualquer caminho. Não adivinho nada, não prometo nada, não curo nada. Ajudo quem me procura a entender o que quer, é só. Não sou mãe-de-santo, nem guia espiritual. Sou psicóloga.
Tive vontade de dizer que pessoas boas quase nunca sabem o que querem. E que nem sempre o que se quer é o que se deve fazer. Mas ia levar a conversa longe demais e aproveitei o breve intervalo no monólogo que eu assistia, para orçar meus modestos honorários, aceitos sem discussão (o que sempre me faz arrepender de não ter pedido mais). Assumi o caso, embora minha covardia antevisse encontros muito pouco agradáveis com o delegado.
III.
Assim que ela saiu, fechei o escritório. Queria caminhar. Sempre penso com mais clareza enquanto caminho. Mas ela ainda estava no hall, esperando o elevador. Mais por vício que por premeditação, convidei-a para um café, ali embaixo. Surpreendentemente, ela negou – queria caminhar até a casa dela, para pensar: “Penso melhor quando ando”, confidenciou, gelando minhas veias.
Prometendo que me manteria quieto, para deixar ela pensar, convidei-me para acompanhá-la, pelo menos, até um lugar seguro – “o Centro, no final da tarde, costuma ser cruel com moças de cabelo Chanel”. Ela fingiu que não percebeu a rima e, sem responder, deixou que eu a acompanhasse pela rua.
No caminho, conversamos como homem e mulher, não como advogado e cliente. Ela achou graça quando eu confessei que só bebia leite, e sem açúcar. Ela tinha aquele jeito de achar graça que só as mulheres especiais têm: fazem com que você se apaixone por elas e por você mesmo – pelo menos pelo que elas pensam de você. Ainda que não passe o resto da vida com elas, o jeito delas acharem graça muda você, para sempre. E ela era frágil e independente – o tipo ideal para chauvinistas, como eu.
Na entrada do prediozinho onde ela morava – um condomínio antigo, com interfone coletivo na porta – ela me surpreendeu com um convite para subir.
Entramos pela cozinha, e ela me serviu um copo de leite gelado. Bebeu alguma coisa que estava num squeeze na porta da geladeira, e umas gotas pingaram na sua camisa branca. Ela percebeu onde meu olhos estavam e me puxou pela gravata. Depois, passando as costas da mão sobre os lábios, disse que era esquisito o gosto de leite sem açúcar na boca dos outros.
O segundo beijo foi cinematográfico e eu já sentia a perna direita dela enroscando-se na minha esquerda, quando ela se afastou e, sem me olhar nos olhos, pediu que eu fosse embora: ela precisava de um advogado agora, não de um namorado. Eu tentei insistir, segurar suas mãos, mas ela falou que era só a androsterona em ação e me pôs para fora, com os olhos úmidos. Os dela, claro.
Na penumbra do corredor, com as costas na porta fechada às pressas, prometi-me que acabaria com o caso o mais rápido possível. Não queria ser o advogado dela.
IV.
No dia seguinte, logo cedo, fui ao fórum, ver o processo. Não tinha havido inquérito – a denúncia da Promotoria partiu de um telefonema anônimo. Tinham sido arroladas duas testemunhas: o delegado e a mulher dele. Anotei os endereços. Seria inútil falar com o delegado. Primeiro, tinha que ouvir a mulher dele.
Na portaria do edifício, não queriam me deixar entrar, nem falar com ninguém do apartamento. Foi preciso mostrar uma onça pintada, de cinqüenta, para que o zelador me deixasse falar com quem atendesse o interfone. Era a sogra do delegado que, depois de eu explicar a situação, deixou-me subir.
Disse-me que ele batia na filha dela, sabe? (todas as frases dela terminavam assim, sabe?). Ela cansou, separou-se e voltou para a casa da mãe. Mas há dois dias, saiu sem avisar e não voltou à noite, sabe?. A velha se desesperou e, quebrando juras de silêncio e desprezo esternos, ligou para o genro que riu e a tranqüilizou: a filha dela estava segura, sabe?. Não consegui sair antes de um copo de leite gelado (que trazia todos os gostos da geladeira) e de ouvir diversos episódios de espancamento infligidos na filha, sabe?. Eu percebi que as chorosas acolhidas maternais eram logo sucedidas por uma sucessão de eu-te-disses. Não era à toa que ela vivia voltando para o espancamento físico: a brutalidade psicológica era mais cruel e as cicatrizes deviam ser mais profundas. Sabe?
A notícia limitava minha ação: agora, eu teria que ir à casa do delegado, gostando ou não. Liguei para a delegacia – ele não estava: segundo o escrivão, tinha saído numa investigação com a equipe “B”. Não me disse onde, claro.
Apesar do risco de ele se sentir tentado a dar uma paradinha em casa, fui até lá. O muro de pedra branca, os ciprestes bem cuidados e a guarita habitada certamente não cabiam no salário de delegado. O cara da guarita, não sem antes me aliviar duas onças pintadas, terminou por revelar que não via a patroa desde que o dia em que ela fez as malas e se pirulitou. A expressão infantilóide, na boca do vigia grosseirão, tinha duplo sentido – ele achava que tinha homem na jogada.
Passei a tarde na delegacia, esperando o marido voltar de suas diligências. Desisti perto das oito, quando o delegado do plantão noturno apareceu e começou a me fazer perguntas, com o queixo em pé e as mãos na cintura. Sem responder nada, dei as costas e fui embora: se o do plantão noturno já estava lá, o outro, decerto, não ia mais voltar.
Antes de dar o dia por encerrado, passei no apartamento de Íris. Ninguém atendeu o interfone. Fui para a casa, derrotado. Tomei ainda dois copos de leite frio, antes de dormir o sono dos intranqüilos.
V.
Na manhã seguinte, acordei com muita fome. Depois do segundo misto quente, que fiz descer com quase um litro de leite, procurei, de novo, o apartamento da Íris. Ninguém atendeu, de novo. Mas do lado do interfone, na caixa de correio, a ponta branca de um envelope me chamou a atenção. Puxei-o. Tinha o meu nome na frente; e “Íris”, no verso.
Abri ali mesmo, em pé. Dentro do envelope, um bilhete à mão e outro envelope. O bilhete: “Não abra o envelope antes do interrogatório. Nele, você vai encontrar a explicação para quase tudo: porque te procurei, porque te pus para fora do apartamento e porque não vou ao interrogatório, hoje. A única coisa que vou deixar sem explicação é tê-lo beijado. E não procure mais a mulher do delegado: ela foi assassinada numa simulação de assalto. Os jornais vão mostrar tudo, amanhã – menos que tudo foi simulado, e a mando do marido dela. Livre-me hoje, no interrogatório e numa outra vida nos encontramos. Perdoe-me, Íris.”
Eu estava a ponto de rasgar o envelope ali mesmo, em pé e descobrir o mistério. Mas aguardei o interrogatório. O envelope queimou meu peito, durante toda a manhã, no bolso de dentro do paletó. À tarde, levei tudo para o juiz. Na sala, estávamos só ele, o escrevente e eu – o Promotor, como de hábito, estava atrasado e talvez só viesse para assinar o termo do interrogatório. Contei toda a história, menos o episódio na cozinha da Íris. O juiz deixou que eu mesmo abrisse o envelope. Continha uma certidão de óbito. A certidão de óbito de Íris Taumari, psicóloga, nascida em 11 de novembro de 1973, morta em 11 de abril de 1995. Não deixou filhos, nem bens.




