Sônia procurou o menino no dia seguinte, na escola. Inútil; ele não tinha ido. Por duas semanas, ele acumulou faltas. Ela, sentindo-se culpada e vendo que ele estava a ponto de perder o ano letivo, por faltas, procurou-o.
Conseguiu o endereço na secretaria. Quase não ligou para a sobrancelha arqueada da mocinha, que não teve coragem de fazer nenhuma pergunta.
Chegou à casa dele na hora do almoço. A mãe, encantada com a visita – ele teve que se apresentar como “professora dele”, porque afinal era exatamente isso que ela era – a fez sentar na mesa posta. Limpando as mãos no avental, perguntou se ele tinha feito alguma coisa errada, se tinha repetido de ano. Pela cara, estava pronta para se filiar aos punidores.
Mas, diante da negativa – Sônia preferiu não entregar a dúzia de faltas, ao menos assim logo de cara – verbalizou sua fé na santidade do menino. Levantou-se para pegar a salada enquanto berrava o nome dele para o corredor. “Vem almoçá-ar!” Não falou que a professora estava ali – queria ver a reação dele, ao vivo e a cores, quando visse a moça na mesa da cozinha.
Como ele não vinha, chamou de novo, e de novo, acrescentando alguns decibéis a cada vez. Até que se preocupou, pediu licença à professora e enfiou-se corredor adentro.
Ainda sentada na beira da cadeira, olhando para as sementes moles que saíam das rodelas de tomate, manchando a pele clara do palmito, Sônia sentiu náuseas.




