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Kafkasardem, morrôi-dazidem.
Depu Clodô.
Pronto.
A Handful.
Há A.



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maio 28, 2007
Kafkasardem, morrôi-dazidem.

Não tinha percebido, mas estava com saudades de um atendimento burocrático.

Desde que saí do outro escritório, mais modestinho, em que eu me fazia de dublê de advogado e estagiário, não freqüento mais o insalubre ambiente forense.

Guardo na memória os avisos presos na parede, com durex, sem dó da pintura, que lembram os advogados que xingar funcionários públicos é desacato; que se a fumaça é o resíduo do seu prazer, o do meu é o xixi; que abriu, feche, acendeu, apague, pegou, devolva. Também me recordo das garrafas pet retorcidas e cheias de água, na Fazenda Pública, para enfeitar as mesas de cerejeira descascada e as máquinas Olivetti Tekna. E dos funcionários barbudos e com ensebados rabinhos de cavalo, das moças mal-vestidas, das escrivãs supermaquiadas. E da extrema má-vontade que há nesses círculos. Até a boa vontade, quando há, parece exibicionista, caridosa.

Hoje, tinha que fazer um levantamento judicial, na Justiça Federal, e era imprescindível que eu fosse, em pessoa. Tentei de todo jeito que fosse um estagiário, mas que o quê.

Meti-me no sobretudo e fui lá, para a Paulista, depois de abrir o escritório, fazer umas petiçõezinhas e coisinhas assim, lá pelas dez horas.

Um labirinto de fita náilon me fez caminhar como um bobo, no salão vazio da entrada do fórum. E o segurança, à frente da máquina de fazer piii: “onde o senhor vai, doutor?” “À Caixa”, digo eu. “Só às onze”, diz ele. “Até às onze, só funciona o protocolo”.

Eram 10:20h. Abracei os três volumes de processo que levava (para provar qualquer coisa, se tivesse algum empecilho no levantamento da grana) e fui até o Conjunto Nacional, para ver se via a nova Cultura, mas estava fechada.

Voltei à máquina de piiii, que fez piii, mesmo me deixando só de calça e camisa. Mas o segurança deixou para lá. Esperei mais uns dez minutos, até que a Caixa abrisse e quando abriu, passei por uma porta rotatória, que me brecou com uma voz de aeroporto, dizendo que eu carregava metal demais. Outro segurança, tira sobretudo, abre pasta, passa maquininha e pronto, enfim, na frente de uma moça da Caixa.

“Levantamento de pequeno valor?” “Sim, por favor”. “Pode ser em qualquer agência da Caixa, menos aqui”. Ah, que bom. “Qual a mais próxima?” “A do TRF, 8º andar” E lá fui.

No prédio do TRF não tem maquininha de piii. Mas o elevador tem uma fila que sai para a rua. Todos chegando àquela hora, se cumprimentando, bom dia, bom dia (mas, cáspita, já são mais de onze).

Depois de uns dez minutos, cheguei no 8º andar. “Levantamento de pequeno valor?” “Sim, por favor”. “Ah, comigo mesmo” disse o Ricardo, sorridente também no crachá. “Espere só um pouquinho, que eu tenho que despachar. Pode sentar, faiçavor”. Carimbo, olhadinha, visto; outra folha (Deus, olha a pilha!); carimbo, olhadinha, visto; carimbo, olhadinha, folha. Pausa para meditar olhando a tela do computador. Pequeno exercício de digitação. Carimbo, olhadinha, visto; carimbo, olhadinha, visto. “Quer ajuda?” Era uma magrinha com cara de gorducha, e cheiro de banho recém-tomado, que chegava despencando cachecol e pasta e revista Caras. Para largar mão de ser besta, recebeu todo o calhamaço – “Já que você quer ajudar...” disse o Ricardo. “É, querer, não quero”, entortou a falsa gorda. Mas, para meu alívio, ficou com a pilha. “São coisas que a gente não faz com amor, não é?”, constatou o Ricardo. Mas não teve resposta, salvo uma entortada de lábios (que, de qualquer modo, já não eram muito certinhos, antes).

A raivinha da moça passou rápido, porque ela logo perguntou para o Ricardo se ele ia sei lá aonde. Ele disse que não ia, porque não tinha conseguido ingresso. Ela disse que não ia, porque o lugar era muito ruim. E o Ricardo: “mas o que vale é a companhia.” Achei que era um xaveco. Mas não. Ele continuou: “Por isso que eu digo: com Jesus, vou até o inferno”, cerrou os punhos, fazendo um L com os braços, e balançando os bíceps magrinhos. "Vou até o inferno, com Ele". Pude até perceber a maiúscula. “Ah, não acho não. Não vejo muita lógica nisso”, disse a mocinha, entre dois carimbos e com mais uma entortadinha labial.

Pensei que ia ficar preso numa discussão teológica e nunca ia conseguir levantar a grana. Mas, não: a celeuma parou ali, como um símbolo da vitória do bom-convívio sobre as diferenças pessoais. O Ricardo foi minucioso como um clínico no exame da minha papelada, auscultando cada assinatura, apalpando as páginas com ciúme profissional. Saí com a receita: “agora o senhor pega estes papéis e leva ao caixa”.

A fila do caixa demorou menos de meia-hora, mas o suficiente para adormecer meu braço direito, com os três volumes do processo, o sobretudo e a maleta. O caixa pegou minha papelada - que o meu braço descontrolado quase arremessou na cara dele - digitou algum código e, olhando para a tela, balançou a cabeça. Recebi aquele meneio como o decreto de morte da minha manhã. E foi: “Doutor, precisa do alvará.” “Mas...”. “Está na tela, não posso fazer nada. Precisa do alvará”.

Decidi não brigar, até porque não poderia usar o braço direito, que é minha arma mais letal. Mas, na saída, à vista do beneplácito sorriso do Ricardo, não resisti e bradei: “Jesus te acompanhe!”.

maio 15, 2007
Depu Clodô.

Ouvi no rádio, hoje de manhã, enquanto me ensaboava no chuveiro, que vão tentar cassar (caçar, quem sabe) o vil Clodô porque ele passou dos limites, dizendo que uma ilustre senhoura que freqüenta o Congresso não serviria para a mais antiga das profissões, porque é feia de-mais.

Não é fato, claro, que valha um post neste inconstante bloguinho, que nunca se dedicou à política, menos ainda à defesa de deputados-estilistas de opção sexual esquerda.

O que justifica este post é que um outro deputado, do mesmo partido da acusa-da-de-feiosa, justificou a medida, dizendo que o Depu Clodô, melhor que ninguém, deveria saber o que é sofrer com o preconceito.

Em um minuto de ensaboada reflexão, antes mesmo de enxaguar o meu bonito corpanzil, passei por diversos estágios de percepção, até chegar à plenitude de uma conclusão racional. Retraço meus pensamentos, na ordem em que brotaram do xampu:

- Ué?
- Carái!
- Não pode mais falar que é feia, não?
- Pode chamar de puta?
- E se ele falasse que a Depu é bonita o sufissente* pra ser puta?
- E se elegermos uma Deputada puta? Teve a Cicciolina! Podemos achar que ela é feia? Eu acho a Cicciolina feia. Mas não era puta, era só atriz pornô. Será que pode dizer que atriz pornô é puta? Ué, dá por dinheiro, não dá? Então é puta. A menos que ame o ator pornô. Que que eu tava pensando meismo?
- Ah, da Depu feia. Ela é feia para dedéu, mas eu vi ela chorando, tadinha. Congresso é coisa para macho. Então o que o Clodô está fazendo lá?
- Hm. Então isso é democracia representativa!
- Quando será que conseguiremos eleger um deputado que goste de Literatura Inglesa?
- Será que eu já passei xampu, meismo? Passei. (Confesso, porém, que tive que chapinhar os cabelos com a mão, para ter certeza).

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*Meus pensamentos não conhecem muito a ortografia, têm até um sotaque da Mooca.

maio 11, 2007
Pronto.

Acho que é o mais demorado que já escrevi.
Me perdi completamente no caminho e dei um final meio Mandrake.
Aqui, a parte final.
Se clicarem a abaixo, toda estória, just in case.

Burguesinho, VII.
Mudar não foi difícil. Pude usar o mesmo nome com o qual meu pai, exilado em Paris, havia me rebatizado. Ele não deu mais notícias e, com a morte dos meus avôs, pus as mãos em dinheiro que dava para me sustentar por vários anos.

O mais engraçado é que o meu pai, homem de pouca imaginação, me rebatizou com um homônimo de um ex-aluno da minha escola, pouco mais velho que eu, cuja vida acompanhei de longe: era uma babaca, que ainda morava com a mãe até os trinta. Aproveitei cópias dos seus boletins, para passar-me por formado. Fiz faculdade no Chile e, depois de vender a casa dos velhos, fui para Cuba, com grana no bolso.

Soube, anos mais tarde, que a dona Sônia vasculhou meu nome na secretaria e foi me procurar em casa. Deve ter-se espantado de encontrar o outro cara, e talvez tenha até se sentido um tiquinho culpada. Se sentiu, foi bem-feito: burguesinho, o cacete.

Burguesinho, I.

I.
Dona Sônia era uma mulher jovem, sempre bronzeada, cujos óculos, obedientes à moda daqueles dias de 1976, iam muito além do rosto. Dava aulas de História para o ginásio, no colégio de freiras salesianas e, todos diziam, era namorada da Dona Elisabete, que mapeava uma desnorteante Geografia para os meus hormônios pré-adolescentes

As aulas, claro, hipnotizavam – além de todo o charme das ousadas calças ranchero da Dona Sônia, havia aquele mistério todo de namoro e, caramba, de duas mulheres!

Assim boquiaberto, com os poucos meninos e as muitas meninas daquela sala de aula no Belenzinho, ouvi a Dona Sônia dizer que, na Idade Média, as pessoas ou eram nobres, ou clérigos, ou burgueses, ou artesões, ou camponeses.

Mas uma covinha, na bochecha esquerda dela, sorriu, levemente debochada: “vocês seriam todos filhos de burgueses, burguesinhos”.

Era a primeira vez que ouvia “burguesinho”, mas lembro de ter ficado com as orelhas quentes, sangüíneas – “burguesinho, o cacete”, pensei.

A descrição que ela fez dos burgueses – bestalhões que não queriam nada com o trabalho, aproveitadores da canga no lombo dos artesãos e dos campônios, folgadões, atravessadores do esforço alheio – transformou os seus filhos em gordinhos maricas. Para quem tem onze anos, não há ofensa maior.

Se ela achava que eu era um gordinho maricas, o meu espírito, não: por dentro, era um esguio e mandão aristocrata, de espada afiada e atitudes nobres. Às vezes, também um musculoso e rude camponês, de clava forte e que não fugia à luta.

A Dona Sônia ia ver só. Burguesinho, o cacete.

II.
Sônia e Elisabete moravam juntas. Sônia era filha de um viúvo, fabricante de botões e pentes de chifre de vaca, que culpava o plástico por sua falência. Talvez por isso ela tivesse aquele ar aristocrático: foram muito ricos e quebraram, mantendo apenas o bem de família, desproporcionalmente marmóreo para aquele bairro classe média baixa da zona leste. Lá, ela morou com o pai, até que um câncer, lento e cheio de impropérios contra o polipropileno, a deixasse infinitamente sozinha.

Foi pouco depois da morte do pai que convidou a Bete, para dividir despesas – não tinha como mudar-se, e os silêncios da casa imitavam os últimos gemidos de seu pai, à noite. Bete morava só, depois de um casamento sem filhos, e aceitou sem pensar. Acabaram compartilhando mais que a casa. Ao menos na hormonal imaginação dos seus aluninhos, dividiam a cama, a pia do banheiro, os tapetes da sala...

No começo, havia algum constrangimento no convívio: uma sentia-se um pouco como anfitriã, responsável pelo bem-estar da outra. A outra, meio-visita, meio-pagante, morria de medo que a outra achasse que incomodava, que passava de limites. E nenhuma das duas estava realmente à vontade nos encontrões pelos corredores, nos flagrantes dos ataques noturnos à geladeira. Mas a natureza dócil, meiga mesmo, das duas, causava mais gentilezas, escusas murmuradas e rubores incontrolados que efetivo mal-estar. Davam-se bem, enfim.

Numa noite de bom calor, Sônia abria um pote de sorvete de creme, quando Bete, de calcinha e camiseta, apareceu na cozinha, pensando no mesmo pote, que haviam comprado para dividirem.

A doce conversa começou pela depressão que o desejo noturno pelo sorvete denunciava; passou pelo Portinho, o professor de Educação Física cujos agasalhos justos causavam métricos comentários na sala das professoras; andou pelo desempenho de alguns alunos, inversamente proporcional ao número de espinhas que exibiam, e terminou em risadas cúmplices, que pontuavam os comentários maldosinhos sobre os alunos, as alunas, as outras professoras e as freiras do colégio.

A hora, anunciada pelo velho carrilhão da sala em três gongadas, fez com que se forçassem a ir para a cama. E Sônia, quase sem perceber, foi beijar o rosto de Bete. Só quando estava perto demais para voltar para trás, lembrou-se que a outra estava semi-nua. Naquela noite, em camas separadas, nenhuma delas dormiu.

III.
Ia ver, ia ver, mas não viu. Aquele negócio de a Dona Sônia me chamar de burguesinho funcionou com uma perfeição de que até Skinner duvidaria.

Na adolescência, segui na mesa escola, com as mesmas freiras, e com a Dona Sônia, intermitentemente, ensinando História. Emagreci, cresci e, para mostrar a força hormonal, aproveitando para esconder as denunciadoras espinhas, deixei crescer a barba, castanha e rala, de fios esparsos e compridos, como são as primeiras barbas. Usava minha pobreza auto-imposta com nonchalance. Andava de calças jeans com as barras desfiadas, camisetas quaisquer, sandálias e bolsa de couro.

Lia e relia Kerouac e Bukowski, enchia a cara de pinga e cerveja, fumava maconha e transava com a maior quantidade de meninas que conseguisse, fosse quem fosse (a “maior quantidade de meninas”, porém, não chegou a cinco – e três eram bem gordinhas. Na minha época, as gordinhas eram sempre mais assanhadas). As burguesinhas da escola preferiam caras menos politizados, e que não falassem das agruras do proletariado, da mais-valia, da exploração do homem pelo homem. E, claro, que não tivessem cara da colchão adormecido.

Mas a minha paixão, tão violenta que eu sequer conseguia imaginá-la nua, continuava sendo a Dona Sônia. Minha militância, a despeito da aparência pouco higiênica, aproximou-me dela. Ela – foi minha professora por todo o colegial – dava atenção e respondia com cuidado, quando eu a procurava com alguma pergunta de História.

Eu percebia sua intimidade crescente com a Dona Elisabete. Notava que combinavam coisas com olhares, como fazem os casais mais antigos. Mais de uma vez, as minhas perguntas ficaram sem respostas completas porque a Elisabete passava às minhas costas, sinalizando alguma coisa, e a Dona Sônia saía, apanhando os livros, pedindo mil desculpas e jurando voltar ao assunto noutro dia, noutra aula.

Naqueles dias, eu escrevia poesia realmente ruim – lembro uns trechos:

Pedaços da pretensa perfeição,
a personificação do pecado puro
A aparência impávida do muro,
a carência cálida da podridão.

Escrevia, rasgava, sofria, chorava, bebia, fumava. E acabava na sala do Diretório Acadêmico, atacando as banhinhas frias de alguma gorducha carente.

IV.
Sônia percebia as intenções daquele menino precoce. Comparava com a Bete as provas dele, no final de cada trimestre, e constatava que, nas suas, ele fazia letra mais caprichada e redigia as respostas com a falsa profundidade própria de quem quer chamar a atenção. Escrevia para ela como se estivesse impostando a voz.

Percebia também que, quando conversava com ele, ele se inclinava na direção dela e, embora não se atrevesse a deixar o olhar escorrer do queixo, o corpo adolescente se contorcia a cada exclamação, como se quisesse mergulhar no seu decote. Não a incomodava, esse assédio mudo. Até gostava, achava lisonjeiro.

O menino, afinal, era bem bonitinho, e apesar da aparência desleixada, estava sempre perfumado – Sônia tinha certeza que era Azzaro, a ponto de lembrar do menino, sempre que sentia esse perfume.

Além disso, aquela atenção toda servia para apimentar a Bete. Mais de uma vez, enquanto conversava com o menino, a Bete inventou coisas para fazerem juntas, e veio resgatá-la com urgência imaginária. Nos dias em que era pega de conversas com o garoto, percebia, às vezes, uma dedicação maior; às vezes, um mau-humorzinho de razões não-declaradas.

Gostava, gostava.

Só começou a se preocupar com a história, quando abriu seu diário de classe e nas dobras do papelão azul, colocada ali às escondidas e com muito cuidado – ninguém ousava ser visto xeretando os diários de classe – apareceu um soneto manuscrito, numa letra caprichada, que ela reconheceu ainda inconscientemente:

“Pedaços da pretensa perfeição...”

V.
Já tinha incorporado o modo de ser e de pensar de quem é de esquerda, e achava, de fato, bacana. Eu sobrevoava, com minhas intenções angelicais, o pragmatismo rude dos burguesinhos – sim, agora era eu que chamava todos os que não me agradavam de burguesinhos: o cara vinha de carro? Tirava boas notas? Era popular? Burguês. A menina usava maquiagem? Não tirava boas notas? Não dava bola para mim? Burguesinha.

A única que preservava desses julgamentos era a Dona Sônia. Até hoje, note, não consigo escrever só “Sônia”. O “dona” tem que vir antes, como título de sua nobreza, como registro de sua propriedade. Dona Sônia, dona.

Um dia, me desesperei: era um chove-não-molha sem-fim, e minhas olheiras estavam cada vez mais fundas, de tanto andar com as exigentes gordotas. E eu já estava no final do terceiro ano; não teria muitas oportunidades de me aproximar da Dona Sônia.

Fumei haxixe pela primeira vez, decidido a ir à casa dela.

Era final de tarde; toquei a campainha. Não sei se passou muito tempo, porque eu já tinha fumado o negócio, e a noção de tempo estava um pouco vaga. Mas logo – ou no espaço de tempo que pareceu “logo” – ela veio à porta, vestida como quem está pronta para sair. Lembro da decepção: a tinha abrindo à porta com roupas caseiras. Tinha a subconsciente expectativa de vê-la com alguma intimidade desprevenida.

Pedi para entrar. Sem perguntar nada, ela me guiou até a cozinha. Quando já estávamos sentados, com duas xícaras de café na mesa, foi a Professora, não a mulher, que perguntou:

- O que há com seus olhos, vermelhos assim? Não tem dormido?

Era a linha que teria pedido a Deus, se tivesse alguma fé, naquela época. Para evitar o sorriso, olhei firme para a xícara, que segurava com as duas mãos:

- Não, não durmo. Só penso na senhora, Dona Sônia. Tudo o que faço, Dona Sônia, é pela senhora, Dona Sônia.

E sem querer, os olhos vermelhos produziram lágrimas rápidas, que escorreram até a minha camisa e me deram uma infantil coriza, que foi o prenúncio da maior vergonha da minha incipiente vida amorosa – a Dona Nilda fez o que nenhuma mulher tem o direito de fazer com quem se abre: foi simpática, maternal. E achou graça.

Levantei, enxugando a coriza no ombro – “você é uma burguesinha – pode até achar que fala e age no interesse da classe operária. Mas é uma burguesinha.”

Com aquela linha dramática, fugi da cozinha, errei a porta e acabei no banheiro. Voltei rápido ao corredor, e fui embora, batendo a porta e chutando o portão.

VI.
Sônia procurou o menino no dia seguinte, na escola. Inútil; ele não tinha ido. Por duas semanas, ele acumulou faltas. Ela, sentindo-se culpada e vendo que ele estava a ponto de perder o ano letivo, por faltas, procurou-o.

Conseguiu o endereço na secretaria. Quase não ligou para a sobrancelha arqueada da mocinha, que não teve coragem de fazer nenhuma pergunta.

Chegou à casa dele na hora do almoço. A mãe, encantada com a visita – ele teve que se apresentar como “professora de História dele”, porque afinal era exatamente isso que ela era – a fez sentar na mesa posta. Limpando as mãos no avental, perguntou se ele tinha feito alguma coisa errada, se tinha repetido de ano. Pela cara, estava pronta para se filiar aos punidores.

Mas, diante da negativa – Sônia preferiu não entregar a dúzia de faltas, ao menos assim logo de cara – verbalizou sua fé na santidade do menino. Levantou-se para pegar a salada, enquanto berrava o nome dele para o corredor. “Vem almoçá-ar!” Não falou que a professora estava ali – queria ver a reação dele, ao vivo e a cores, quando visse a moça na mesa da cozinha.

Como ele não vinha, chamou de novo, e de novo, acrescentando alguns decibéis a cada vez. Até que se preocupou, pediu licença à professora e enfiou-se corredor adentro.

Ainda sentada na beira da cadeira, olhando para as sementes moles que saíam das rodelas de tomate, manchando de vermelho a pele clara do palmito, Sônia sentiu náuseas.

VII.
Mudar não foi difícil. Pude usar o mesmo nome com o qual meu pai, exilado em Paris, havia me rebatizado. Ele não deu mais notícias e, com a morte dos meus avôs, pus as mãos em dinheiro que dava para me sustentar por vários anos.

O mais engraçado é que o meu pai, homem de pouca imaginação, me rebatizou com um homônimo de um ex-aluno da minha escola, pouco mais velho que eu, cuja vida acompanhei de longe: era uma babaca, que ainda morava com a mãe até os trinta. Aproveitei cópias dos seus boletins, para passar-me por formado. Fiz faculdade no Chile e, depois de vender a casa dos velhos, fui para Cuba, com grana no bolso.

Soube, anos mais tarde, que a dona Sônia vasculhou meu nome na secretaria e foi me procurar em casa. Deve ter-se espantado de encontrar o outro cara, e talvez tenha até se sentido um tiquinho culpada. Se sentiu, foi bem-feito: burguesinho, o cacete.

maio 10, 2007
A Handful.

Coisa que não costumo fazer, porque acho um pouco exibicionista e porque sou meio ignorantão, mesmo.
Mas, assim mesmo, vou fazer uma crítica de “A Handful of Dust”, de Evelyn Waugh.
É assim: primeira parte, P.G. Wodehouse; segunda parte, Joseph Conrad.
E nunca vi alguém judiar tanto de um personagem.
Pronto.
Vão ler, vão.

(Ah, o título do livro é tirado do "The Waste Land" de T. S. Eliot. E uma coisa tem muito a ver com a outra. Depois de lerem o livro, leiam isto. Eu disse DEPOIS.)

maio 08, 2007
Há A.

Muitas coisas que queria dizer nestes dias aí, e acabei não dizendo.
Agora, esqueci.
Mas, regozijemo-nos: há Tiago A. entre nós.
Bem-vindo!