Não tinha percebido, mas estava com saudades de um atendimento burocrático.
Desde que saí do outro escritório, mais modestinho, em que eu me fazia de dublê de advogado e estagiário, não freqüento mais o insalubre ambiente forense.
Guardo na memória os avisos presos na parede, com durex, sem dó da pintura, que lembram os advogados que xingar funcionários públicos é desacato; que se a fumaça é o resíduo do seu prazer, o do meu é o xixi; que abriu, feche, acendeu, apague, pegou, devolva. Também me recordo das garrafas pet retorcidas e cheias de água, na Fazenda Pública, para enfeitar as mesas de cerejeira descascada e as máquinas Olivetti Tekna. E dos funcionários barbudos e com ensebados rabinhos de cavalo, das moças mal-vestidas, das escrivãs supermaquiadas. E da extrema má-vontade que há nesses círculos. Até a boa vontade, quando há, parece exibicionista, caridosa.
Hoje, tinha que fazer um levantamento judicial, na Justiça Federal, e era imprescindível que eu fosse, em pessoa. Tentei de todo jeito que fosse um estagiário, mas que o quê.
Meti-me no sobretudo e fui lá, para a Paulista, depois de abrir o escritório, fazer umas petiçõezinhas e coisinhas assim, lá pelas dez horas.
Um labirinto de fita náilon me fez caminhar como um bobo, no salão vazio da entrada do fórum. E o segurança, à frente da máquina de fazer piii: “onde o senhor vai, doutor?” “À Caixa”, digo eu. “Só às onze”, diz ele. “Até às onze, só funciona o protocolo”.
Eram 10:20h. Abracei os três volumes de processo que levava (para provar qualquer coisa, se tivesse algum empecilho no levantamento da grana) e fui até o Conjunto Nacional, para ver se via a nova Cultura, mas estava fechada.
Voltei à máquina de piiii, que fez piii, mesmo me deixando só de calça e camisa. Mas o segurança deixou para lá. Esperei mais uns dez minutos, até que a Caixa abrisse e quando abriu, passei por uma porta rotatória, que me brecou com uma voz de aeroporto, dizendo que eu carregava metal demais. Outro segurança, tira sobretudo, abre pasta, passa maquininha e pronto, enfim, na frente de uma moça da Caixa.
“Levantamento de pequeno valor?” “Sim, por favor”. “Pode ser em qualquer agência da Caixa, menos aqui”. Ah, que bom. “Qual a mais próxima?” “A do TRF, 8º andar” E lá fui.
No prédio do TRF não tem maquininha de piii. Mas o elevador tem uma fila que sai para a rua. Todos chegando àquela hora, se cumprimentando, bom dia, bom dia (mas, cáspita, já são mais de onze).
Depois de uns dez minutos, cheguei no 8º andar. “Levantamento de pequeno valor?” “Sim, por favor”. “Ah, comigo mesmo” disse o Ricardo, sorridente também no crachá. “Espere só um pouquinho, que eu tenho que despachar. Pode sentar, faiçavor”. Carimbo, olhadinha, visto; outra folha (Deus, olha a pilha!); carimbo, olhadinha, visto; carimbo, olhadinha, folha. Pausa para meditar olhando a tela do computador. Pequeno exercício de digitação. Carimbo, olhadinha, visto; carimbo, olhadinha, visto. “Quer ajuda?” Era uma magrinha com cara de gorducha, e cheiro de banho recém-tomado, que chegava despencando cachecol e pasta e revista Caras. Para largar mão de ser besta, recebeu todo o calhamaço – “Já que você quer ajudar...” disse o Ricardo. “É, querer, não quero”, entortou a falsa gorda. Mas, para meu alívio, ficou com a pilha. “São coisas que a gente não faz com amor, não é?”, constatou o Ricardo. Mas não teve resposta, salvo uma entortada de lábios (que, de qualquer modo, já não eram muito certinhos, antes).
A raivinha da moça passou rápido, porque ela logo perguntou para o Ricardo se ele ia sei lá aonde. Ele disse que não ia, porque não tinha conseguido ingresso. Ela disse que não ia, porque o lugar era muito ruim. E o Ricardo: “mas o que vale é a companhia.” Achei que era um xaveco. Mas não. Ele continuou: “Por isso que eu digo: com Jesus, vou até o inferno”, cerrou os punhos, fazendo um L com os braços, e balançando os bíceps magrinhos. "Vou até o inferno, com Ele". Pude até perceber a maiúscula. “Ah, não acho não. Não vejo muita lógica nisso”, disse a mocinha, entre dois carimbos e com mais uma entortadinha labial.
Pensei que ia ficar preso numa discussão teológica e nunca ia conseguir levantar a grana. Mas, não: a celeuma parou ali, como um símbolo da vitória do bom-convívio sobre as diferenças pessoais. O Ricardo foi minucioso como um clínico no exame da minha papelada, auscultando cada assinatura, apalpando as páginas com ciúme profissional. Saí com a receita: “agora o senhor pega estes papéis e leva ao caixa”.
A fila do caixa demorou menos de meia-hora, mas o suficiente para adormecer meu braço direito, com os três volumes do processo, o sobretudo e a maleta. O caixa pegou minha papelada - que o meu braço descontrolado quase arremessou na cara dele - digitou algum código e, olhando para a tela, balançou a cabeça. Recebi aquele meneio como o decreto de morte da minha manhã. E foi: “Doutor, precisa do alvará.” “Mas...”. “Está na tela, não posso fazer nada. Precisa do alvará”.
Decidi não brigar, até porque não poderia usar o braço direito, que é minha arma mais letal. Mas, na saída, à vista do beneplácito sorriso do Ricardo, não resisti e bradei: “Jesus te acompanhe!”.




