“Gracinhas dos filhotes” é tema recorrente em blogs por aí. Eu nunca – até este histórico momento – havia cedido à vagabunda tentação de me transformar num Adolpho Bloch eletrônico (“criança diz cada uuuma” e zás, um tapa no joelho).
Mas, como tudo é relativo, as morais e os bons costumes já não são mais o que foram um dia, como todos preferimos ser metamorfoses ambulantes, do que ter aquelas velhas opiniões formadas sobre tudo, e que apesar do que fizemos ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais (fora o DVD, o celular, a internet, e as barrinhas de cereais, né?), enfim, por tudo isso, mudei de idéia e, rendendo-me às mais vis táticas de preencher espaços em blog, vou falar de uma gracinha da minha filha.
Ela tem seis anos e, para equilibrar esse meu jeito fascista e mandão, freqüenta uma escola que preza a tolerância e incentiva o convívio com a “diversidade” (fiz aspas com os dedos, também, ao escrever isso aí). Ontem, disse que os meninos de sua classe não gostam do menino retardadinho (será que se pode dizer assim? Ele não tem Down, é só meio esquisito. Ou será que teria que dizer deficiente mental? Acho retardadinho melhor. Se fosse filho meu, diria meu filho retardadinho, não meu filho deficiente mental. Tudo isso, só para que não digam que sou politicamente incorreto. E vejam vocês quanto tempo que essa imposição social nos toma, não é? Mas, Jivago.) que estuda lá (o retardadinho): baba muito, e eles (os outros meninos, menos retardadinhos, porque todo menino, até pelo menos 41 anos, é meio retardadinho) têm nojinho (eles, os outros meninos. Deixa eu recomeçar). Os meninos têm nojo do retardadinho. Ela (minha filha) disse a eles (os meninos) que, quando ele (o retardadinho) fez a listinha das coisas que se precisa (sujeito indeterminado), antes de vir para a Terra, esqueceu de colocar “habilidade de engolir saliva”.
Enfim, expliquei tanto que perdeu a graça. (É sempre assim com estórias dos filhos - só os pais vêem o lampejo da genialidade precoce. Por isso, antes de contar a do seu, escreva, para ver se tem graça, mesmo. E não poste).
Mas conheço um monte de gente que também esqueceu de enfiar essa indispensável habilidade, nas listas pré-natais, de cuja existência, até ontem, eu nem lembrava. E confesso que eu mesmo, ao ouvir a pequenina, tenho dúvidas de que a tenha incluído na minha.




