
Há uma tese obscura que prega que o gesto cavalheiresco de deixar as damas irem à frente esconde a malícia de dar uma espiada na derrière. Embora eu seja naturalmente gentil e britânico, não me valho dessa facilidade: impede-me um inato e invencível pudor.
Meu olhos, porém – ah esses enfants terribles, que se recusam a precisar de óculos (mesmo tendo iniciado sua carreira cibernética no fósforo verde e mesmo sendo adeptos da leitura-cross, que consiste em ler nas situações mais inóspitas) – eles às vezes não se controlam e acabam levando o registro ótico a lugares que envergonhariam o mais libertino super-ego (o que é mais comportado do que os lugares aonde se chega com o mais conservador id, mas é longe o bastante para a minha racional pudicícia).
Nesses involuntários passeios oculares, acabei registrando uma nova moda, entre algumas das freqüentadoras do cotidiano metrô: consiste em tatuar-se uma enigmática carpe diem entre aquelas duas concavidades carnais que se sobrepõem simetricamente (nos melhores casos) a cada uma da bochechas (não, não aquelas. Essas, mesmo).
Usam, essas declaradas epicuristas, calças de cintura baixa, revelando atrás o seu motto e à frente, via de regra, um piercing que enfeita as suas cicatrizes natais. E me fazem perguntar, em solilóquio murmurado: “que cazzo?”
Minha primeira explicação foi tratarem-se de meninas que a-do-ra-ram a Sociedade dos Poetas Mortos e sonham em ter um professor bacaninha e melancólico como o Robin W.. Mas é um filme velho e bobo, que essas meninas que ainda não têm estômago (de modo que podem usar beibi-lúquis, sem despinguelar suas banhas braguilha abaixo), decerto não viram.
Descartada essa tese hollywoodiana, o que me ocorreu foi que deve haver alguma correlação entre o “agarre o dia” e a bunda, que vai logo abaixo: seria, talvez, um convite. Sim, se pudessem colocar a frase inteira, decerto tatuariam: “você, gentil cavalheiro que caminha pelo metrô lendo livrinhos, pare já o que está fazendo e carpe diem, caramba, a começar pelo que segue anexo”.
Se coubesse a frase inteira a bunda não interessaria, claro. Ou as letras seriam tão miúdas que, ao lê-las, você já estaria fazendo coisas muito mais íntimas do que apenas agarrar o dia. Por isso, sugerem, candidamente, que o gentil e distraído leitor aproveite o dia e dê, quem sabe, uma olhadinha na bunda.
Só nessas ocasiões, juro – e só porque é um gesto humilde de acolhimento a uma súplica escrita – permito que minha mente libere os olhos-meninos, deixando que se demorem um tiquinho mais, carpando o panorama.




