
Uma das minhas verdades profissionais é que você não pode mandar alguém fazer alguma coisa, se você não souber fazê-la melhor, pessoalmente. Por isso, e para ficar afiado, sempre me faço ir às Delegacias e ao Fórum, mesmo que seja para fazer um protocolo, ou ficar na fila de ver processo, esperando que o funcionário mal-humorado me diga que o processo está na conclusão, ou qualquer outra coisa que sirva para evitar que seu derrière abandone a cadeira.
Com esse hábito prático, e como não tinha nada mesmo para fazer naquela seca noite de segunda-feira, e decidi ir investigar, por conta própria, onde estava a Maria Antonia.
No Fórmula Um, uma onça pintada bastou para ver a ficha de registro que ela preencheu com a mesma letra masculina do cadastro improvisado da Diva. De fato, não pôs o Meirelles no final do nome. Anotei o RG e o CPF, e me surpreendi com o endereço: era o do meu escritório. Profissão: “advogada”. Sorri, imaginando que se encantou comigo, com o glamour do meu escritório, e talvez tenha até cogitado uma vida profissional a dois. Ou, já apagando o sorriso, talvez toda a estorinha que me contou fosse falsa mesmo.
Peguei meu velho Citroën com o manobrista do hotel, que esperou em vão por algum trocado – ele não tinha nem tirado o carro da rampa – e fui ao Le Chef Rouge. O mâitre aceitou os cinqüenta como gorjeta, mas não conseguiu lembrar da moça. Recomendou um Saint Pierre grelhado que eu recusei porque vinha à provençal (o que me faz cheirar como um coreano do Bom Retiro), e pedi um frango ao curry, com muito chutney à parte. Isso traz um misterioso sorriso de condescendência dos mâitres, não sei bem por quê.
O garçom, sempre do Piauí, lembrou da Maria Antonia quando mencionei os sapatos baixos. Disse que a achou alta, e olhou para os pés, para ver o tamanho do salto (decerto para ter certeza de que cabia nos seus sonhos), surpreendendo-se com os sapatos baixos, tão atípicos nos Jardins. Lembrava-se que trazia algumas sacolas de compras e que teve que esperar muito, para pegar o pedido dela, primeiro porque falava muito no celular, depois porque parecia que olhava para o cardápio aberto, sem lê-lo.
Perguntei se ele por acaso tinha ouvido alguma coisa da conversa pelo celular, e ele me disse que tem o hábito de se afastar nessas horas, para não constranger a clientela, mas que ela dizia não-não-não, baixinho, e que seus olhos brilhavam como os de sua filha pequena, antes do choro sentido. Disse-me também que ela pediu um risoto de frutos do mar, mas que deixou mais da metade no prato, a ponto dele perguntar, com sincera preocupação, se o prato não estava satisfatório. Não tomou café e pagou a conta em dinheiro. Ele não estava certo, mas achava que ela tinha pedido ao porteiro um táxi do ponto que atende ao restaurante. Lembrava desses detalhes, porque o caixa acabou chamando a polícia, pouco depois dela sair: as notas eram falsas.
Saí do restaurante sem vontade de ir para casa, e decidi rodar pela Vila Nova Conceição, sem esperança de encontrar pista qualquer, certo de que a metrópole não permite mais coincidências felizes. Numa das esquinas da João Lourenço, uma Porsche Cayenne, preta e visivelmente blindada (como todas) pulou em uma valeta e quase me acertou o pára-choque – o que seria um prejuízo só para mim, porque o da Porsche já estava desfigurado por alguma barbeiragem. O insulfilm não permitia ver os ocupantes e eu decidi seguir o apressadinho – quem sabe não era o carro do marido dela? A perseguição durou pouco, porque ele – ou ela – entrou num prédio da Praça Pereira Coutinho.
Estacionei no final da quadra e tentei falar com o porteiro, mas o segurança, ainda na calçada, não me deixou nem chegar perto da portaria. Disse a ele que era oficial de justiça, com um mandado de citação. Ele me perguntou para qual apartamento, disse que não constava no mandado, mas o réu era Vitor de Campos Meirelles. Espalmou a mão há uns respeitosos dez centímetros do meu peito, e com a outra, pôs o Motorola, oblíquo, na boca:
- Tem um oficial de justiça aqui que quer falar com o Dr. Vitor, do dezessete.
Depois do chiado, o porteiro pediu um instante.
Ficamos ali, nos medindo, eu e o gorila, que afastou as pernas e pôs as mãos para trás, imaginando se podia comigo, caso a coisa esquentasse. Mas não esquentou:
- A Dona Maria está descendo para atender – anunciou o Motorola.
A adrenalina de imaginar a Maria Antonia descendo fez minhas mãos tremerem como nas audiências do começo da carreira. Mas o sangue sossegou quando vi uma senhora (cujo único sinal de idade era o pescoço, e ele estava escondido por duas grossas fileiras peroladas) esperar que abrissem o portão e, como se fosse a Rainha Elizabeth, atravessar os portões de Buckingham. O segurança me apontou de viés com o Motorola e ela endureceu a face mais do que permitia o botox, para vir falar comigo.
- Sou Maria Joana, a mãe dele, como posso ajudar?
A frase solícita desmentia a superioridade do olhar, que passeou pelos meus sapatos mal engraxados e pelo meu terno de shopping, talvez procurado o mandado.
- Em nada. Preciso falar com ele, em pessoa. Ou com a esposa.
Até eu me surpreendi com a minha espontânea arrogância, que fez o segurança soltar os braços, abandonando o “descansar” para postar-se em sentido. Mas ela, salvo por ter baixado as pálpebras por um milésimo de segundo a mais do que necessário, não traiu o desconforto.
- Sinto muito, ele não está. E ela não mora mais aqui.
Tirei do bolso uma caneta de camelô e um cartãozinho, pronto para anotar o endereço:
- Onde ela mora?
- Não sei. Eles brigaram e ela saiu de casa há três ou quatro dias. Não ligou, nem disse onde poderia ser encontrada. Meu filho está no Rio, desde esta manhã.
- Quando volta?
- Não sei. Não sei nem se volta.
- Tem o endereço dele, lá?
- Fez reserva no Copacabana Palace. Ele sempre fica lá. Boa noite.
Virou-se e se foi, fazendo com que o porteiro desse um salto para trás com o portão que segurava aberto, para ouvir a conversa. Na minha hesitação, o segurança se pôs no caminho:
- Ela disse boa noite.
Fiz olhos de Clint Eastwood e, devagar, pus as o cartão e a caneta no bolso. Mais devagar ainda, saquei a chave do Citroën. E fui-me. Enquanto abria a porta do carro, vi o segurança dobrar o pescoço para lá e para cá, e voltar ao “descansar”.
Arranquei com o carro e liguei o rádio, para pescar as últimas notícias. O susto veio antes de chegar à IV Centenário:
- “...o corpo da moça foi encontrado no canteiro da Marginal Pinheiros, próximo à loja Daslu. A polícia confirmou que se trata de atropelamento, mas não tem pistas do autor. Ainda não se sabe o nome da vítima que, segundo a polícia, trazia um lenço bordado com as iniciais M, A e R.”
Procurei em vão, em outras rádios, o repeteco da notícia, mais detalhes. Acabei empurrando o CD do Sinatra, que disparou:
What now my love, now that you’ve left me
How can I live through another day
Watching my dreams turn to ashes
And my hopes turn to bits of clay
Não fosse pela orquestração festiva da música, eu teria acreditado que ele lê pensamentos. Ainda assim, desliguei o rádio e acendi um cigarro.




