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dezembro 24, 2007
Pai.

Bigodes não ficam bem em ninguém, salvo no meu pai. Meu pai sem bigode não seria meu pai. Estava tão incorporado à sua fisionomia, que não era mais um bigode. Talvez se me perguntassem: “Seu pai tem bigode?” eu diria que não, e só depois de uns dois minutos daria um tapa na testa: “Ah, não, tem sim”.
Portava, antes da segunda operação (a primeira foi cardíaca, e ele saiu assobiando), uma barrigona redonda e dura. A única barriga atlética que já vi, e que encimava a minha melhor herança – coxas de nadador; pernas como ninguém, salvo eu, ele e o meu filho, as temos.
Não consigo ir ao mar, sem me lembrar dele. Primeiro, eram as baleeiras, no Porto dos Práticos, em que embarcávamos ainda de madrugada, com dois barqueiros de livro – um que antevia cada virada do tempo só de olhar para o mar; outro sem dentes, o Bodega, a quem sempre dávamos tarallo, comprado na 14 de julho, para ver como se virava. Ele ria de sua própria boca quase inútil, adorando o gostinho das sementes de erva doce no biscoito duro. Pescávamos até que os dedos sangrassem com as linhadas e voltávamos exaustos do sol, do sal, do diesel da vagarosa baleeira, sentindo-nos heróis de uma saga marítima.
Depois, já passado dos cinqüenta, e fumando dois maços de Albany, com carvão radioativado, carregava caixas de Bis, latas de leite condensado, sanduíches insossos, coca-colas, máscaras, nadadeiras, lastros de chumbo e snórqueis, e alugava barcos para irmos mergulhar. Sempre passava mal e sempre era o mais ponderado dos mergulhadores, sempre tinha alguma coisa a dizer, sempre fazia alguma piada. Sempre era olhado pelos outros, por todos os outros, com olhos infantis. Era o salva-vidas.
Uma vez eu, pequeno e medroso, não quis mergulhar. Fiquei no barco, entre duas ilhas em Ubatuba, observando os snórqueis se afastarem e tentando compreender os peixes-voadores em volta do casco. Percebi que o barco não estava bem apoitado , as marolas o carregavam, chegava perto das rochas. Meti a mão na buzina e um dos mergulhadores, que estava mais próximo, veio e salvou o barco. Para o meu pai, a história era outra – para ele, mesmo eu dizendo que só tinha buzinado, eu é que tinha ligado o barco e evitado o naufrágio.
Amava os três filhos com idêntica intensidade, mas um pela bondade, outro pela inteligência, outra pela coragem. Protegia-nos como um pai judeu: na minha primeira noite de aula, passou horas em um banco do Largo São Francisco, olhando-me de longe, para ver se eu não sofreria no trote. Voltou para casa incógnito e orgulhoso, e eu só soube que estava lá por uma inconfidência maternal.
Era italiano, desses que dão um tapa na mesa, empurram a cadeira com um estrondo e largam o prato no meio, quando os filhos passam dos limites. Vê-lo largar a refeição no meio virou, para mim, a maior punição possível.
Quando brigávamos, ficávamos dois ou três dias trocando grunhidos. E minha teimosia sempre vencia a dele, que cedia-e-não-cedia, fazendo alguma troça que me fizesse rir contra a minha vontade.
Foi embora neste fatídico ano; eu me segurava em sua mão. E pediu desculpas, vejam vocês, desculpas! Sabia, graças a Deus, o a falta que o seu mar nos faria. O bigode, branco e ralo, estava bem aparado em seu rosto emagrecido. E já não era mais ele.
dezembro 10, 2007
Encantada, encantada.

Pincesa?
Firme no meu propósito de conferir todos os lançamentos condizentes com este meu QI imberbe, preparei-me para desfalecer diante da tela de projeção da “Encantada”. Como previa, os melhores momentos do filme já estavam no trailer – acho uma sacanáj sem tamanho essa onda de botar no trailer o best of, dando a entender que no filme tem mais e melhor, quando não tem. Deviam fazer mais como fizeram no trailer d’“Os Incríveis”, que é ótemo, e a cena dele não tem no filme – sendo que o filme também é sehr gut, sisseñor.
Mas enfim.
O que ia dizer é que a “Encantada” nos põe, homens de certa lassidão física e que não mais ostentam os primores e os cabelos da beleza juvenil, em delicada situação.
Há uma certa guinada no que diz respeito às moçoilas: o filme não é daqueles que defendem molheres independentes e liberadas, pura e simplesmente, em contraposição (ó!) às amélias que esperam, cândidas, os seus píncipis. Não: sugere-se que uma coisa não elimina a outra: você, molher, pode ser emancipada e bacaninha e, ainda assim, abocanhar (epa, opa) o seu píncipe.
Mas há maldade, há maldade: as pincesas – a Encantada e a namorada do mocinho – são feiosinhas. Tá, feiosinhas não. Mas esquisitildas, isso são. Podiam escolher uma Julia R., uma Gwyneth P. – mas botaram duas moçoilas esdrúxulas.
Já os rapagões, esses são – tive o desprazer de confirmar o fato com a Dona D. – bonitões de primeiro time. Um, o mocinho, é insosso e bocó. E o píncipe coisa-em-si é um coió. São, embora morenos, loiros-burros. Ou, para usar a linguagem dos anos cê-senta, bijetos sexuais.
Por isso, meu caro co-píncipe, recomendo dieta e bidominais a granel. Mesmo que defendas teses obscuras sobre a literatura russa no pós-revolução, ou que garantas bravamente o sustento da ninhada, sem barriga tanquinho, elas não ficam mais encantadas.
dezembro 07, 2007
Roncorium.

Hebe se prepara para o selinho de Edinanci.
Não sei se é a idade, que avança, se é o estresse da vida muderna aliado à minha aversão por Cynar, ou se é falta de horas de sono mesmo – mas tenho sido flagrado roncando em lugares nunca antes neste País tidos como propícios para a entrega à Morfeu. Hoje de manhã, por exemplo, tirei largos cochilos na cadeira do dentista enquanto ele – supostamente – fazia-me um tratamento de canal. Babei tanto que nem o sugador dava conta, como me confidenciou, rindo atrás da máscara, a assistente do dotô.
Noutro fim de semana, fui ver a Loja Mágica de Brinquedos, ou Incrível Loja de Mágicas, ou a Fantástica Fábrica de Brinquedos Mágicos, ou sei lá. É um filme com o Dustin H. encarnando a Hebe C..
Os quinze primeiros minutos são absolutamente lastimáveis. Já era bem ruim ver a Natalie P. fazendo o papel de Edinanci e o Dustin H. como uma bichinha boba, velha e de mau-gosto. Mas aí vem a história – a Hebe tem uns 243 anos e sua Loja Mágica vende - a-há! – brinquedos mágicos, como um móbile de peixes vivos (e o futum, no quarto do bebê? E os cocôs dos peixes?). Ele comprou uma cacetada de sapatos na Toscana, em 1800 e alguma coisa, e agora está no seu último par, querendo morrer por falta de sapatos e passar a loja para a Ângela R.-R., que não quer receber, não, mas não se entende porquê. Ela é uma ex-menina-prodígio do piano, que tem uma música inacabada, cujos acordes dedilha nos assentos dos bancos de ônibus e sabe-se-lá mais onde, enquanto mira o horizonte infinito.
Como vai encerrar a loja, a Hebe contrata um contador que – a-há de novo! – é bobalhão e realista. A loja sente que a Hebe vai morrer e começa a ficar cinza, e eu também, a ponto de roncar escandalosamente no Multiplex. Acordei nos letreiros, junto com meus filhos, que passavam os pequenos pulsos sobre as pequenas bocas babadinhas. Só a Dona Diacrônico, que não dorme em hora errada, saberá explicar como eles levaram o filme inteiro para acabar justamente como começou.
O tratamento de canal, honestamente, foi mais confortável - se for assitir, recomendo uma anestesia, antes. Peridural.
dezembro 05, 2007
Da Exploração do Proletariado Mineiro: Um Paradoxo.
dezembro 04, 2007
Get Divorced and Get Laid.

Lá no Grande Irmão do Norte, onde os dotôs-devogados têm muito mais liberdade de anunciar, umas devogadas descaradinhas inventaram o anúncio aí em cima. Não é mentira não, veja aqui.
Mas é preciso pensar em simbiose, em sinergia.
Como os devogados e devogadas têm demonstrado um imenso apego às atividades aeróbicas e fisioculturísticas em geral, propogno – e acho que sou pioneiro – criar um escritório que, além de fomentar a ruptura dessa arcaica convenção da tradição judaico-cristã, já apresente alternativas interna corporis para a satisfação imediata dos sonhos eróticos dos novos solteiros. Talvez, até, uma associação com o futuro prefeito Oscar M.!
Business opportunities estão em todo o canto, basta estar atento.
dezembro 03, 2007
Lemon-squash.
“When I became a man I put away childish things, including the fear os childishness and the desire to be very grown up.”
“They accuse us of arrested development because we have not lost a taste we had in childhood. But surely arrested development consists not in refusing to lose old things but in failing to add new things? I now like hock, which I am sure I should not have liked as a child. But I still like lemon-squash. I call this growth or development because I have enriched: where I formerly had only one pleasure, I now have two. But if I had to lose the taste for lemon-squash before I acquired the taste for hock, that would not be growth but simple change. I now enjoy Tolstoy and Jane Austen and Trollope, as well as fairy tales and I call that growth: if I had to lose the fairy tales in order to acquire the novelists, I would not say that I had grown but only that I had changed.”
Podia ser a profissão-de-fé (ainda se diz isso?) deste inconstante bloguinho, não fosse o fato de que eu ainda gosto mais de lemon-squash que de hock.
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