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janeiro 29, 2008
Casual Moralizing

applebee.jpg

Tenho uma fascinação caipira por restaurantes do tipo casual dining – sabe como é: Hard Rock, Planet Hollywood, RainForest Café, Bubba Gump Shrimp, essas porcarias.

Aqui na caipira São Paulo é difícil freqüentar esses lugares que vendem comida ruim e souvenires legais – sobram o TGI, o Outback e o AppleBee’s.

A Mme. Diacrônico sempre reluta, refuta e refuga, mas às vezes eu ganho, e acabamos numa dessas catástrofes culinárias.

Do TGI já desisti, pela franca decadência do lugar – se a comida é péssima, ao menos o chão tem que estar limpinho. O Outback não tem nada que eu consiga comer, fora aquela xibola gordurosíssima, que me dá pesadelos. Então, vira e mexe, consigo levar nossa pequena troupe ao AppleBee’s. Conseguia.

Da última vez, tomei uma lição de moral tão constrangedora que não consigo mais por os pés naquele sacrossanto recinto – preciso me purificar, me confessar talvez, antes de voltar a macular o cândido restaurante com minha imoral presença.

É que estávamos lá, e eu, sempre novidadeiro e com vontade de experimentar o inusitado, pedi uma pink limonade que, para minha juvenil alegria, tinha refil grátis, ad infinitum.

Também pedi uns nachos, cheios de porcaria em cima: pretendia, alegremente, estourar a pança e a bexiga, ao mesmo tempo. E os apimentados nachos fizeram com que eu esgotasse a rósea bebida com uma celeridade pantagruélica.

Pedi o refil que, para minha franca decepção, não vinha mais rosadinho: o refil é verde, porque eles não misturam mais o corante, quando é refil. Um pouco desestimulado, mal biquei o néctar reposto. A austeridade na distribuição do corante rosáceo deveria ter-me feito adiantar o que viria, mas, não: não percebi que o espartano restaurante também teria que ter uma moral espartana.

E assim, ingenuamente, quando minha filha – ainda então com seis gulosos anos – pediu para experimentar a pink lemonade verde (oh, o arrependimento!), vejam vocês, eu deixei!

O garçom, levemente afeminado, e que nos havia servido com uma universitária presteza, interrompendo a infantil absorção, trouxe-me de volta à moral e aos bons costumes: “senhor, minha gerente pede para adverti-lo que os refiis (sim, com “i” duplo) são só para quem pediu a bebida. Não podem ser bebidos por outro.”

Enrusbeci – e olhe que não me enrusbeço com muita freqüência. Sou duro de enrusbecer. Mas diante de minha própria corrupção moral, como evitar que o sangue aflua à face?

Como pude descer tanto? Como pude deixar que o meu vício, minha maldade, meu animus furandi, maculasse assim tão gravemente a minha até então impoluta imagem paterna? Afinal, R$ 4,90 por um copo de pink lemonade – e com gelo, muito gelo, gelo para caramba! – é quase uma esmola! Como repassá-la, mesmo que a uma filha de seis anos? Como não vi essa evidente transgressão à moral judaico-cristã? Como não vi esse atentado à ética protestante e ao espírito do capitalismo?

Registro aqui, portanto, publica forma, os meus agradecimentos ao benfazejo e moralizante estabelecimento, certo de que doravante, envergonhado que estou, jamais tornarei a pousar minhas vis nádegas em seus envernizados e pudicos sentadores.

janeiro 21, 2008
- Woo- woo - what?

Eu, que nunca consegui me emocionar com as performances do Jimmy H., nem com as letras desafinadas da Janis J., finalmente, lendo um artigo se Simon R., numa New Yorker velhusca que eu deixo no lavabo para impressionar as visitas, finalmente compreendi Woodstock:

- Mr. President! Did you hear about Woodstock?
- Woo- Woodstock? What in God’s name is that?
- Apparently, young people hate the war so much they’re willing to participate in a musical sex festival as a protest against it.
- Oh, my God. They must really be serious about this whole thing.
- That’s not all. Some of them are threatening to join communes: places where they make their own clothing… and beat on drums.
- Stop the war.
- But Mr. President!
- Stop all American wars!
- (sighs) Very well sir. I’ll go tell the generals.
- Wow. It’s a good thing those kids decided to go hear music.

Curiosamente, tenho a sensação de que aqui não seria piada.

janeiro 17, 2008
Longing to Stray.

IMG014.JPG
Nova York é o lugar mais agradável do mundo para quem quer fazer turismo à Richard Burton (não o marido da Liz T., o outro), confundindo-se com os nativos.
Em Manhattan, ninguém é estrangeiro. Até japoneses em comitiva estão em casa, lá (aliás, agora que as hordas chinesas também invadiram o mundo do turismo, se você ainda não consegue distinguir uns dos outros pelas feições, pelos hábitos ou pela língua, uma dica fácil – quando chove, evidentemente – é verificar os guarda-chuvas : os japoneses apertam um botãozinho e abre-se, sem ruídos ou invoncenientes, uma cabaninha portátil. Esticada como a Hebe C.. Já os chineses também apertam um botãozinho no cabo, mas têm que chacoalhar o troço até que ele se abra de verdade. E, quando enfim se desenrola o pano, está lá o chinês debaixo de um paninho que parece uma imitação de ameixa em calda).
Nesta idílica passagem, eu saía lampeiro em direção ao Central Park, para dar umas voltas matinais (uma, e olhe lá, na verdade) no reservatório, quase no ritmo do Dr. Cooper. A despeito de minha lerdeza, tenho certeza que não chamei muita atenção (salvo quando tropecei num labrador, tentando ver se era mesmo a Cameron D., que tinha acabado de passar).
Depois, com as crianças perguntando tudo na língua-mãe, e eu pedantemente respodendo apenas em inglês, devo ter passado por um perfeito imbecil – que, curiosamente, é como os americanos se enxergam, hoje em dia , ou, pelo menos, como enxergam os seus compatriotas, porque ninguém parece ter votado no Bush, e eles vivem pedindo desculpas por ele.
Tudo isso, enfim, só para me gabar caipiramente, dizendo que tirei feriazinhas em Nova York, e que estou bem calminho, agora. Ou quase.