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Casual Moralizing

applebee.jpg

Tenho uma fascinação caipira por restaurantes do tipo casual dining – sabe como é: Hard Rock, Planet Hollywood, RainForest Café, Bubba Gump Shrimp, essas porcarias.

Aqui na caipira São Paulo é difícil freqüentar esses lugares que vendem comida ruim e souvenires legais – sobram o TGI, o Outback e o AppleBee’s.

A Mme. Diacrônico sempre reluta, refuta e refuga, mas às vezes eu ganho, e acabamos numa dessas catástrofes culinárias.

Do TGI já desisti, pela franca decadência do lugar – se a comida é péssima, ao menos o chão tem que estar limpinho. O Outback não tem nada que eu consiga comer, fora aquela xibola gordurosíssima, que me dá pesadelos. Então, vira e mexe, consigo levar nossa pequena troupe ao AppleBee’s. Conseguia.

Da última vez, tomei uma lição de moral tão constrangedora que não consigo mais por os pés naquele sacrossanto recinto – preciso me purificar, me confessar talvez, antes de voltar a macular o cândido restaurante com minha imoral presença.

É que estávamos lá, e eu, sempre novidadeiro e com vontade de experimentar o inusitado, pedi uma pink limonade que, para minha juvenil alegria, tinha refil grátis, ad infinitum.

Também pedi uns nachos, cheios de porcaria em cima: pretendia, alegremente, estourar a pança e a bexiga, ao mesmo tempo. E os apimentados nachos fizeram com que eu esgotasse a rósea bebida com uma celeridade pantagruélica.

Pedi o refil que, para minha franca decepção, não vinha mais rosadinho: o refil é verde, porque eles não misturam mais o corante, quando é refil. Um pouco desestimulado, mal biquei o néctar reposto. A austeridade na distribuição do corante rosáceo deveria ter-me feito adiantar o que viria, mas, não: não percebi que o espartano restaurante também teria que ter uma moral espartana.

E assim, ingenuamente, quando minha filha – ainda então com seis gulosos anos – pediu para experimentar a pink lemonade verde (oh, o arrependimento!), vejam vocês, eu deixei!

O garçom, levemente afeminado, e que nos havia servido com uma universitária presteza, interrompendo a infantil absorção, trouxe-me de volta à moral e aos bons costumes: “senhor, minha gerente pede para adverti-lo que os refiis (sim, com “i” duplo) são só para quem pediu a bebida. Não podem ser bebidos por outro.”

Enrusbeci – e olhe que não me enrusbeço com muita freqüência. Sou duro de enrusbecer. Mas diante de minha própria corrupção moral, como evitar que o sangue aflua à face?

Como pude descer tanto? Como pude deixar que o meu vício, minha maldade, meu animus furandi, maculasse assim tão gravemente a minha até então impoluta imagem paterna? Afinal, R$ 4,90 por um copo de pink lemonade – e com gelo, muito gelo, gelo para caramba! – é quase uma esmola! Como repassá-la, mesmo que a uma filha de seis anos? Como não vi essa evidente transgressão à moral judaico-cristã? Como não vi esse atentado à ética protestante e ao espírito do capitalismo?

Registro aqui, portanto, publica forma, os meus agradecimentos ao benfazejo e moralizante estabelecimento, certo de que doravante, envergonhado que estou, jamais tornarei a pousar minhas vis nádegas em seus envernizados e pudicos sentadores.