
Se viesse com figurinha da Keira K., ainda valia a pena.
Não por opção consciente, mas por achar que ainda é legal dizer que não acompanho novela e não leio best-seller, eu não acompanho novela e não leio best-seller. Mentira. Já é bobo dizer que não se acompanha novela, nem se lê best-seller. O que se deve dizer é que não se assiste televisão, e não se lê livro com menos de um século. E, de fato, eu não assisto televisão – salvo os Backyardigans – e não lia livro com menos de um século há algum tempo até chegar ao Atonement.
Os Backyardigans todo mundo sabe que é uma bobagem infantil, quase inofensiva, se não fosse assim tão politicamente correta. O Atonement também.
Li – culpa a quem a tem – por causa da Ms. D., que queria que eu lesse alguma coisa que pudesse comentar com ela. Não agüentaria ler o Caçador de Pip’s, nem a Minina que Afana Liv´s, e achei que agüentaria o Atonement. Um monte de gente diz que é uma obra-prima, quase um bildungsroman, um romance herdado da Jane Austen, coisa boa mess, e tal. Mas, não é.
É um livro adulto, porque, vejam vocês, fala de séquiço. Melhor dizendo: fala de dois atos sequiçuais sobre os quais vai todo o enredo. E um deles é até inverossímil. Beeeem inverossímil – tipo um estupro em que a vítima não sabe quem é o autor, ou não quer dizer porque foi gotozinho, e por isso tudo, a solução do crime depende do testemunho de um menininha, que teria visto um vulto, à noite.
Aí é um festival de lugares-comuns: os ricos são maus, as ricas boas largam tudo e viram enfermeiras, o mocinho sofre que é uma coisa. Todos analisados froidianamente, para não deixar nadica para a inteligência do leitor – afinal, se o cara está lendo esse treco não deve ser lá muito inteligente.
Mas, há pior: com tanta história de guerra boa, que envolve a Inglaterra, o seo McE. foi pegar justo o episódio da Batalha de Dunkirk, onde os ingleses, tentando ajudar os frogs, tomaram um cacete dos lemão e tiveram que evacuar, no bom sentido. Até na escolha desse fracasso fracassa o Atonement – fica parecendo, e é mesmo, coisa politicamente correta, proselitismo dessa pacificação maníaca de hoje em dia, quando até quem leva ferro tem que ficar quieto, porque é feio atacar. Quem sabe a Inglaterra e os EUA não bateram forte demais? Vamos repensar a Segunda Guerra, pessoal? Vamos relativizar?
E o pior de tudo é o final. O cara, não sem alguma hesitação, tinha dado um final meio roliudiano, all’s well that ends well, beleza, você se cansou mas chegamos ao fim, e está tudo bem. Mas – a-há! – vem a narradora (ora, mas é uma narradora? Quem diria, quem diria – não via esse truque desde o Roger Ackroyd, quando aliás, foi mais bem feito) e sagazmente planta a dúvida: será que terminou assim mesmo ou terminou mal, e eu que inventei. “Sei lá, estou com sono”, ou something of the sort. E assim acaba o livro, com o mais idiota “final em aberto” (que coisa horrivelmente demodê, não é?) de todos os tempos.
E não reclame que eu estraguei o livro. Não fui eu: foi o seo McE..




