
Pois então vou falar sério, um pouquinho. Vem cá, senta aí. Respira. Pronto. Tenho uma metáfora entre a Microsoft e a moral que é imperdível. Prestenção.
Eu sempre (entendendo-se “sempre” como o advérbio de um tempo maior do que os meus 42 anos conseguem lembrar com exatidão) acreditei que nunca vamos descobrir o mistério da vida por falta de equipamentos: por maiores que sejam as nossas cabeçorras, e ainda que alguns de nós ainda acreditem que só usamos 10% da massa cinzenta (e muito embora em alguns casos isso seja verdade), estamos condenados a só entender as coisas por tabela.
É a linguagem, stupid: só conseguimos pensar através das palavras ou, com algum esforço e pouca nitidez, através das imagens. Logo, estamos limitados àquilo que conhecemos. Como conhecer, só com o que conhecemos, aquilo que não conhecemos? Não dá, né? O mito da caverna, por exemplo, é uma metáfora que meta-ilustra isso, capice?
O Nabokov diz isso - e qualquer outra coisa, aliãs - bem melhor: "I am a slave of images. We speak of one thing being like some other thing when what we are really craving to do is to describe something that is like nothing on earth".
Um dos três contos da Trilogia de Nova York, do aborrecido Paul Auster, tem uma idéia readaptada: deixaram um cara, logo que nasceu, trancado no quarto, sem nenhum contato com a linguagem humana, para ver o que dava, se o cara aprendia, ou lembrava, da língua divina. Claro que o livro não traz nenhuma resposta que preste.
Mas livros melhores trazem respostas melhores - há uma batutinha no Brothers Karamazov, do Sikanevassy Dostoevsky. Perguntam ao velho padre como provar que há vida eterna. Ele diz que não há como provar, mas há como se convencer disso. Como? perguntam. A resposta (está em inglês porque a tradução em Língua Pátria, salve, salve, que eu tenho, da Nova Aguilar, é muito ruinzinha; a em inglês está mais legal):
“By acts of love. Try to love your neighbors, love them actively and unceasingly, and as you learn to love them more and more, you will be more and more convinced of the existence of God and of the immortality of your soul. And if you achieve complete self abnegation in your love for your fellow man, you will certainly gain faith and there will be no room in your soul for any doubt whatsoever. This has been tested. This is the true way.”
Quando li isso, anotei à margem (do rio de pedra, sentei e chorei): “but then again woudn’t it be love in trade for something? Wouldn’t it be egotism?”
Claro que o pecado original é o egoísmo (vejam estes pecaminosos blogues, meu D-us!), e que só conseguiremos uma resposta para aquelas perguntas, de fato, com completo altruísmo, que é, até onde eu me conheço, bissolutamente impossível.
Quer dizer, se você consegue ser totalmente abnegado para saber “a” resposta, naturalmente você deixou de ser altruísta, né, coió?
Eu acabei me empolgando e falando de outra coisa, que não a metáfora da Microsoft e a moral. Mas é que eu ia dizer que era uma metáfora bonitinha, que ajuda a entender as coisas etc., mesmo a gente sabendo que as metáforas são os grilhões do castigo divino e (aaaaaaaaargh! que palavreado horrível!), são os limites do entendimento humano (melholhou, mas ainda está meio besta), enfim, não adianta muito ficar fazendo metáfora para explicar.
Juro que no próximo post, muito embora não vá esclarecer o mistério da vida, vou fazer a metaforinha da Microsoft com a moral. Isso, claro, se eu lembrar qual era.




