A primeira coisa que faço ao acordar é pegar o jornal que o porteiro deposita no meu capacho. Minha sonolenta consciência me leva da cama à porta da área de serviço, sempre com as boxers e apenas com elas. Seja o que Deus quiser – as aeromoças que moram na porta em frente podem se divertir com o meu despenteado matinal, ou podem – há gosto para tudo – fantasiar com o meu torso nu, que não é mais o mesmo, mas ainda dá algum orgulho.
Não naquela manhã, porém: saí da cama com esforço muito acima da média nacional (é muito, pode apostar) e, ao invés de ir exibir-me ao olho mágico das vizinhas, fui direto ao terraço, acender um cigarro.
Depois, enfiei uma bermuda e uma camiseta e fui pegar o jornal, ciente de que procuraria a notícia definitiva. Abri o caderno “Cidades” ainda com a porta aberta, de pé, descalço sobre o capacho. Estava lá, era uma notinha apenas. E não era exatamente definitiva.

Meu impulso inicial foi desistir da história toda. Afinal, vi a moça uma vez só, não levei prejuízo, e não havia nenhuma possibilidade de cobrar de alguém alguma ação judicial qualquer. Mas o dia me reservava uma reunião com o síndico do prédio do meu escritório – a segunda coisa mais aborrecida do planeta, só perdendo para reuniões com todos os condôminos. Ou isso, ou eu começava a acreditar em amor à primeira vista.
Mas uma das aeromoças abria a porta, puxando a sua maleta com rodinhas. O sorriso veio mais aberto que aqueles reservados aos passageiros da classe turística – sinal que meu torso ainda causava alguma simpatia. Mas dei bom-dia e entrei, sem esperar que o elevador chegasse. O sisal do capacho já fazia furinhos na minha sola nua.
Avisei a Diva que só apareceria depois do almoço e pedi para ela cancelar a reunião com o síndico. As respostas monossilábicas e tônicas, junto com a batida forte do gancho, não disfarçaram o seu estado de espírito, e eu pensei que talvez nem depois do almoço daria as caras.
Liguei também para o James, que me deu a ficha:
- É do Andrade, um mau-caráter, titular da 34.
- Mau-caráter por quê?
- Você está no celular?
- Não, no fixo, de casa.
- Você continua ingênuo, né? Me paga um jantar no Gero que eu te conto.
- Morro curioso. Mas me diz se posso falar no teu nome.
- O mau-caráter não sou eu.
Se era mesmo mau-caráter, não pareceu, ao menos à primeira vista. Mau caráter, ou pelo menos mal-educado, foi o investigador que, depois de pegar o cartão de visitas que lhe entreguei na entrada do corredor, me levou até a sala do Roberval e, sem tirar o palito da boca, me apresentou com o dedão:
- Doutor Jorge, o menino aí vem lá do James.
- Tá, brigado, Valentim. Pode sair.
- O cara usa palito na boca antes do almoço?
- É prevenido. Como posso lhe ajudar, doutor... – checou o cartãozinho – doutor Oliveira?
Não era o meu cartão de visitas, claro. E o cartão do Oliveira só dizia “Juiz de Direito”, não dizia a vara, nem o endereço.
- Essa moça, que acharam hoje nos canteiros da Marginal. Já identificaram?
- Ainda, não. Mas que linda, Oliveira, que linda. Posso te chamar de Oliveira? Então, nunca vi mulher morta mais linda na minha vida. E olhe que estou nisto há uns dez anos. O pessoal do IML deve estar fazendo a festa. Era parente sua?
- Nã...não, não. É que a filha de um conhecido do meu pai sumiu ontem à noite, e ele achou...
- Ora, mande ele vir aqui, então. Melhor: porque já não leva o cara direto ao IML, para reconhecimento?
- Ninguém ainda reclamou o corpo?
- Nah. Aqui, só apareceu um playbozinho, ontem de madrugada, dizendo que achava que era a mulher dele. Mandei o cara para lá, mas acho que não deu em nada, porque ninguém me ligou. Pera aí.
Ligou para o IML, conferindo o número embaixo do tampo de vidro da escrivaninha. Ninguém tinha ido lá, ver o corpo. Ele avisou que estava mandando alguém, para atenderem rápido, que era da chefia. Disse-me para procurar o Guaracy. Agradeci e saí sem saber por que o James julgava tão mau o caráter o Andrade.
O Guaracy era um desses caras que de olhar você sabe que parecem muito mais novos do que de fato são. O rosto cor de cobre, não se sabe se de sol ou se de raça, e os cabelos brancos indicavam mais de sessenta, mas muito vigorosos sessenta. Apertou minha mão com força de vinte, olhando nos meus olhos e sorrindo com dentes que decerto tinham visto um tubo de Corega há poucos minutos.
Guiou-me pelos corredores do IML que, fora as mesinhas de alumínio, não tem nada a ver com os morgues de filme americano – há um burburinho, um entra-e-sai, uma displicência, que fazem você esquecer que aquelas portas cinzas escondem cadáveres e mais cadáveres, a maioria deles de mortes violentas. Todo aquele movimento deve facilitar a venda das hipófises, maldei para mim mesmo.
O Guaracy, sem parar de andar, abriu com o ombro uma porta de vai-e-vem e entramos numa sala esbranquiçada por lâmpadas fluorescentes, com pelo menos dez daquelas mesas de alumínio, todas com moradores abertos. Não sei o que eu esperava encontrar ali, mas o choque foi tão grande que eu voltei pela porta de vai-e-vem, segurando o queixo e a boca.
- Não posso trazer para o corredor, seu juiz. O senhor vai ter que entrar, para ver a moça.
Fiz que sim com a cabeça e espalmei a mão no ar, para ele esperar um pouco. Ele olhou para os lados, enfiou a mão no bolso. Tomei coragem e ar:
- Vamos.
E fomos. Segui-o de olhos baixos, mirando seus calcanhares. Quando parou, parei. Vi primeiro as roupas, empilhadas no pé da mesa – vestido preto, confere; meias de náilon com costura, confere; sapatos baixos, confere. Mas o corpo não era o dela. Ou era. Ou não era. Era. O rosto estava mole, amarelado, com hematomas feios. E não consegui olhar o corpo, que, de qualquer modo, eu não reconheceria. Mas era ela.
Senti que o Guaracy me olhava. Dei as costas e caí fora. Sem ele à minha frente, tive que seguir de pescoço em pé e a roxidão dos corpos se misturou ao cheiro horrível do local (não era só formol), fazendo um bolo na minha garganta. Mas não vomitei. O Guaracy, já perto de mim de novo, perguntava se eu estava bem e sorria com a sua dentadura seca.
Não havia um maldito bar por perto. O dia tinha esfriado. Acendi um cigarro e ofereci o maço ao Guaracy, que pegou dois cigarros, agradeceu, deu tapinhas no meu ombro, e foi embora, enquanto eu girava a chave na porta do velho Citroën.
As primeiras gotas da garoa matinal já ajuntavam poeira no pára-brisa. E eu achei natural que o CD-player escolhesse aquela faixa. Funny how love becomes a cold rainy day. Funny - that rainy day is here.




