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junho 17, 2008
Less gas from the ass.

Excelentíssima Vereadora Soninha,

Esta velha carcaça conservadora sacudiu-se inteira com este post em que, em linhas gerais, Vossa Excelência defende o direito de se pedalar pelado pelas ruas de São Paulo (conquanto faça breve, e memorável, crítica à exibição de roupas de baixo masculinas, de todo repugnantes, a quem quer que seja).

Fiquei tentado, advogado que sou, a esclarecer-lhe a vigência do artigo 234, do Código Penal, que, graças!, prevê leve pena a quem exiba suas partes pudendas a pessoa que não manifestar a intenção explícita de vê-las explícitas.

Ah, mas dirá a nobre edil (edila?) “obscena é a fome”; “obscena é a corrupção do poder”; “obsceno é o capitalismo selvagem (ô-ô-ô, homem-primata)”; “obscena é a violência”; “obscena é a desigualdade social”; “obsceno é o Bush”.

E poderia eu discordar, registrando que a fome é constrangedora e melancólica, mas não obscena. Que a corrupção do poder é vergonhosa e lamentável, mas não obscena. Que o capitalismo bon sauvage é prejudicial à saúde, mas não obsceno. Que a violência é um mal da natureza humana, a ser combatido dia-a-dia, mas não é obscena. Que a desigualdade social é fruto de nossa própria incompetência, mas não é obscena. E que o Bush não é obsceno – a menos que decida pedalar pelado pelo Iraque.

Poderia dizer isso tudo e mais, mas não vou – o que vou dizer é que mesmo que essas coisas todas aí sejam obscenas, isso não faz menos obscena a cena de um cidadão – e, porque não dizê-lo, uma cidadã – pelado, encarapitado sobre duas rodas.

Talvez seja apenas meu gosto, mas ver bigulim balangando sobre freios cantilever, ou nádegas, cabeludas ou não, abraçando selins de couro (aliás, convenhamos: há esportes mais seguros, do ponto de vista urológico, que passear pelado de bicicreta, né?), não é cena que me cause algum prazer estético (ou de qualquer outra espécie, adianto) – ao contrário, além da angústia de imaginar que algum buraco termine de empalar o ciclista, há um certo constrangimento em ver pessoas peladas na rua.

Se não houvesse constrangimento, a manifestação não teria nenhum sentido, não é? Embora a filosofia ocidental já tenha questionado, pioneiramente e com integral razão, “que espécie de argumento é uma bunda?” , é evidente que as nádegas expostas no meio da rua têm como alvo primário uma convenção social (como alvo secundário, Freud explica).

E é lá bonito a quem se candidata à alcaideria que fique pregando o fim das convenções sociais, prosaicas que sejam?

Ora, se há o desejo popular de que as pessoas sejam livres para andarem e pedalarem peladas pelas ruas, poderia a nobilíssima – e, aliás, bem trajada – edil (edila?) propor projeto de lei, transformando a urbe paulistana em área de nudismo. Decerto incrementaria o turismo – talvez não o tipo certo de turismo, mas enfim.

Desculpe a grosseira comparação, mas é mais o menos o mesmo que decidir eu aqui, com os meus botões (o nudismo ainda não é compulsório, neste post, de maneira que digito vestindo pudicas calças e curiosa camisa), que quero que o sinal vermelho signifique “ande”, e o verde, “pare” (o amarelo continua sendo “atenção”, porque de fato amarelo é uma cor que lembra “atenção”, ao menos em relação ao fígado). Feito esse meu livre libelo contra a repressora convenção, passo a atravessar todos os faróis (semáforos ou sinaleiras, para os alienígenas) vermelhos, e verberando todos os meus democráticos direitos, se levar uma multa ou, pior, se for atropelado por alguém que insiste, conservadoramente, em que o verde é para andar e o vermelho, para parar (decerto algum repressor membro – epa, opa – da TFP).

Algumas imagens para - touché - arrematar o argumento:

537379758_e86eabffeb.jpg
Mas talvez - talvez, eu disse -...


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...eu hipocritamente mude de idéia...


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...se a World Naked Bike Ride coincidir com o São Paulo Fashion Week.


Tudo isso, enfim, para dizer que, embora não pretenda sufragar Vossa Excelência (na verdade, não pretendo sufragar Excelência nenhuma, por enquanto), e conquanto eu possa ser visto pedalando (adequadamente trajado) pela cidade nos mais matinais momentos dos domingos, gostaria que não transformasse, em objeto da campanha, o pedalar livre de roupas, menos ainda o cruzar incólume dos faróis vermelhos e as demais prosaicas convenções sociais, que tornam mais aprazível, e menos cheia de contratempos, esta nossa breve estada no planetinha (outrora, Al Gore?) azul.

Atenciosamente, ma non troppo,

Mauro.

junho 11, 2008
Órfãos de filhos.

corrida.jpg

É uma coisa muito civilizada, atualmente, não ter filhos.

Eu mesmo tinha feito essa opção na adolescência, porque não queria propagar a miséria humana e por todas essas bobagens que os hormônios nos vendem como verdades definitivas. Depois, gastando os hormônios por aí, isso perdeu importância, e por um tempo eu passei a me preocupar só com não ter filhos sem querer.

Mas casei e ficamos sete anos solteiros. Veio então a primeira filha, de propósito e de caso pensado, mas sem muito raciocínio, porque ninguém que raciocine direito tem filho.

De fato, optar por não ter filhos não é uma posição que se critique racionalmente (a não ser pela sublimação comm cachorrinhos, o que faz essas pessoas desfilhadas, com o tempo, a falar bijujuquinho com os cacholinhos bonitinhozinhos nheco-nheco e a lançar olhares raivosos para os filhos dos outros, nos elevadores e nos restaurantes).

Sim, mas fora isso, não é uma posição que se critique racionalmente. E não sou eu quem vai dizer que o “crescei etc.” significa exatamente o que quer dizer, menos ainda vou profligar (profligar às vezes é preciso, mas não agora) que os meios contraceptivos etc..

Não.

O que as pessoas que decidiram nunca ter filhos nunca entenderão – e há aí uma limitação humana – é o que se sente por filhos.

Mas o que se sente por filhos? É mais ou menos como tentar explicar qual é o gosto de feijão, para quem nunca comeu feijão (com a diferença essencial que filhos, salvo à mãe na gravidez, não dão gases).

E não me entendam errado – não estou profligando (hoje tirei o dia para não profligar) que é mais vantagem ter filho, que não ter filho. Nah. Não sei: eu tenho filhos e, como todo mundo que tem filhos, não sei mais como é não ter filhos (sei que é um lugar onde os filmes têm enredo melhorzinho, mas já não estou tão certo).

Não quer ter filhos? Fine with me, mesmo que desconte tudo num pobre lhasa-apso.

Mas não pose de auge da civilização ocidental, nem tente me convencer de que não ter filhos é melhor – quem faz isso posa de Cristopher H., tentando convencer todo mundo que Deus não existe. É meio ridículo, sério.

Aliás, não é mesmo curioso que haja muito mais órfãos de filhos entre os ateus, que entre os crentes e os agnósticos (que são os crentes wannabe)? Talvez o ateísmo provoque uma baixa sperm count, vai saber.

Mas enfim, tudo isso só para dizer que pai-patrão que sou, forcei meus dois filhos a entrarem numa corrida infantil, e o menor chorou e chorou que não queria, mas eu firmão ali o convenci, e ele foi e correu e gostou e ficou todo orgulhoso dele mesmo, porque conseguiu fazer o que tinha medo de fazer. E a maior foi e tropicou na largada e tomou um capote e ralou o joelho e levantou e correu e correu e correu e terminou em quarto. E beat that you dog-lover gutless atheist.

junho 02, 2008
Ah, the pain. Ha, the pain!

Illu_pancrease.jpg

A dor é subjetiva é um truísmo", diria o conselheiro Acácio.
Já Nietzsche – ou seria Ryan Gracie? – dizia num outdoor que a dor é a fraqueza saindo do corpo.
Efeitos da anestesia geral; coisas que escrevi com o meu próprio sangue no travesseiro da sala de recuperação, enquanto pedia um Johnny Red com um Red Bull. Sem, naturalmente, provocar sequer um sorriso de condescendência, naqueles que me viram por dentro.