
É uma coisa muito civilizada, atualmente, não ter filhos.
Eu mesmo tinha feito essa opção na adolescência, porque não queria propagar a miséria humana e por todas essas bobagens que os hormônios nos vendem como verdades definitivas. Depois, gastando os hormônios por aí, isso perdeu importância, e por um tempo eu passei a me preocupar só com não ter filhos sem querer.
Mas casei e ficamos sete anos solteiros. Veio então a primeira filha, de propósito e de caso pensado, mas sem muito raciocínio, porque ninguém que raciocine direito tem filho.
De fato, optar por não ter filhos não é uma posição que se critique racionalmente (a não ser pela sublimação comm cachorrinhos, o que faz essas pessoas desfilhadas, com o tempo, a falar bijujuquinho com os cacholinhos bonitinhozinhos nheco-nheco e a lançar olhares raivosos para os filhos dos outros, nos elevadores e nos restaurantes).
Sim, mas fora isso, não é uma posição que se critique racionalmente. E não sou eu quem vai dizer que o “crescei etc.” significa exatamente o que quer dizer, menos ainda vou profligar (profligar às vezes é preciso, mas não agora) que os meios contraceptivos etc..
Não.
O que as pessoas que decidiram nunca ter filhos nunca entenderão – e há aí uma limitação humana – é o que se sente por filhos.
Mas o que se sente por filhos? É mais ou menos como tentar explicar qual é o gosto de feijão, para quem nunca comeu feijão (com a diferença essencial que filhos, salvo à mãe na gravidez, não dão gases).
E não me entendam errado – não estou profligando (hoje tirei o dia para não profligar) que é mais vantagem ter filho, que não ter filho. Nah. Não sei: eu tenho filhos e, como todo mundo que tem filhos, não sei mais como é não ter filhos (sei que é um lugar onde os filmes têm enredo melhorzinho, mas já não estou tão certo).
Não quer ter filhos? Fine with me, mesmo que desconte tudo num pobre lhasa-apso.
Mas não pose de auge da civilização ocidental, nem tente me convencer de que não ter filhos é melhor – quem faz isso posa de Cristopher H., tentando convencer todo mundo que Deus não existe. É meio ridículo, sério.
Aliás, não é mesmo curioso que haja muito mais órfãos de filhos entre os ateus, que entre os crentes e os agnósticos (que são os crentes wannabe)? Talvez o ateísmo provoque uma baixa sperm count, vai saber.
Mas enfim, tudo isso só para dizer que pai-patrão que sou, forcei meus dois filhos a entrarem numa corrida infantil, e o menor chorou e chorou que não queria, mas eu firmão ali o convenci, e ele foi e correu e gostou e ficou todo orgulhoso dele mesmo, porque conseguiu fazer o que tinha medo de fazer. E a maior foi e tropicou na largada e tomou um capote e ralou o joelho e levantou e correu e correu e correu e terminou em quarto. E beat that you dog-lover gutless atheist.




