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dez
by mauro in Uncategorized

Who, me?
Pois eu juro que passo a acreditar no brasileiro-coisa-em-si no momento em que revogarem o Código de Defesa do Consumidor.
dez
Vinde a mim.
by mauro in Uncategorized
Depois de muito refletir, entre a São Bento e a Ana Rosa, ontem à noite, cheguei a mais uma das minhas Verdades Insofismáveis, que se soma às demais que já solidificaram na cachola e que me guiam os passos anos há. E muitos há.
A Verdade é que o mundo não se divide entre bons e maus. Não, melhor: o mundo se divide entre bons e maus, sim, mas há uma classificação melhor: entre crianças e adolescentes – sendo que, claro, as primeiras são os bons, e os últimos serão os primeiros, minto, os últimos, os maus.
E não se apresse em querer derrubar a minha Verdade, dizendo, todo pimpão, que há crianças más e adolescentes bons. Claro que há. Mas as crianças más são mini-adolescentes, ou adolescentes para os quais só faltam algumas doses de hormônio e um tênis all-star assinado pelos amigos. E os adolescentes bons são crianças que, como eu e você (não é, não é?) não conseguiram evitar a idade, o crescimento e a acne.
A partir daí criei um simples teste para você saber se é bom, ou se é mau. Basta responder à questão abaixo (o gabarito está ainda mais abaixo, de ponta-cabeça, para que você não cole).
Qual foi a melhor época da sua vida?
(a) Minha infância.
(b) Minha adolescência.
(c) Agora.

nov
Cobra!
by mauro in Uncategorized

São Paulo, 6 de novembro de 2009.
Condomínio Edifício *At. Sr. N* (síndico)C/c.: Administradora J*
Ref.: Cobra na sala.
Prezados senhores,
Na manhã de hoje, no 20ª andar (apto. 201), encontramos atrás da cortina – com natural espanto (que, aliás, deve ter sido mútuo) – uma cobra.
Depois de ser heroicamente capturada pelos funcionários do Condomínio (a quem somos imensamente gratos), a cobra foi engarrafada e levada ao Instituto Butantan, onde nos foi dito tratar-se de uma corn snake, originária da América do Norte, e que pode ser encontrada nos pet shops da cidade por cerca de US$ 250,00.
Registramos esses acontecimentos (agora já mais tranqüilos, porque nos informaram que não se trata de animal peçonhento), para que seja levado ao conhecimento dos demais condôminos, de modo a não se espantarem, caso o mesmo incidente se repita com qualquer deles. Também é bom deixar claro que a cobra que achamos ficou no Instituto (onde, esperamos, terá vida longa e próspera, ao lado de suas rastejantes congêneres).
Também nos parece conveniente que, caso algum dos condôminos se dedique à criação de cobras, sapos, lagartos ou qualquer outro animal silvestre de aspecto pouco agradável, informe ao senhor Síndico e à Administração, para que, em caso de fuga ou extravio, os demais condôminos não fiquem, como nós, à beira de um ataque cardíaco.
Por último, solicitamos (e autorizamos) que esta seja levada ao conhecimento dos demais condôminos, pela forma que Vossas Senhorias julgarem mais conveniente.
Gratos,
L. & MauroApto. 201, 20º andar.
out
O Paraíso dos Aforismos.
by mauro in Uncategorized

Claro que o twitter arrefeceu, muito, o meu já capenga animus postandi.
Para não dar sumiço geral, aproveito as poucas inspirações tuíticas, e as lanço aqui, sem ordem e sem propósitos quaisquer.
- Nunca tomei café com o Saramago. Graças a Deus.
- Se o da paz é do Barack O., o de literatura tinha que ser do Paulo C.
- The greatest iPod risk is to take your loud fart for a silent one while jogging in a gym threadmill.
- Só vou acreditar na ética protestante quando o “to be continued…” vier no começo do primeiro episódio.
- Desejo a todos os grevistas que tocam buzina no Anhangabaú que manifestem violenta alergia a papel higiênico quando a cortisona faltar.
- Twitter de político assusta.Uma confessou que não vê utilidade de decorar tabela periódica.Outro aceitou que corrigissem Moóca por Mooca porque vem do tupi-gurani. Ê jacaré…Neguim acha bacana puxar ferro, mas não entende porque tem que decorar tabela periódica, se não vai ser químico. Ué, vai ser estivador?
- Não fumo mais, mas a lei nazista me faz ter vontade de criar uma resistência francesa: Gitanes.
- Tuíter é o paraíso dos aforismos.O melhor do tuíter é que não dá para defender tese.Mas tem um lado mau: induz à metalinguagem.Cáspita, defendi uma tese.
- RT @JoeBonanno The best way to kill time is work to death.
- The “four stages in every artist’s attempt at mastery: imitate, emulate, equal, surpass” (Pete Hamill). Aqui nóis começa pelo úrtimo.
ago
Corpore Insano.
by mauro in Uncategorized
“Run, Fatso, run!”
Venho tentando me impedir de escrever sobre o hábito de correr, que adquiri tardiamente e venho exercendo com invejada regularidade, a despeito da heróica resistência da minha preguiça.
É que todos os que escrevem sobre esse assunto, além de terem sido alfabetizados recentemente, acabam falando dos seus recordes pessoais, da sua satisfação pessoal, do seu bem-estar, de como eles são rápidos ou (e/ou!) resistentes, o que acaba fazendo com que você se sinta como uma anta flácida e preguiçosa, que deveria estar correndo, ao invés de estar com o farto popô na cadeira, vendo bobagens na internet.
Mas ocorre que eu peguei uma mania de me inscrever em corridas de rua, que é uma maneira de pagar para correr e fazer com que o judeu (leia árabe se for judeu, e vice-versa, por favor; se for judeu-árabe, leia armênio), que coabita este organismo, me faça ir correr para não perder a grana da matrícula.
E no domingo corríamos todos – eu e mais umas vinte mil pessoas – pelo Centro Histórico, quando me senti profundamente desestimulado, talvez pelo excesso de falta de sono dos últimos dias, talvez pelos mais de quarenta anos que acompanham este velho bio-espaço, talvez pela terrível visão de uma ladeira montanhosamente íngreme do lado do Viaduto Santa Ifigênia, talvez porque o judeu (ou árabe, ou armênio) tenha decidido ficar sentado, enquanto eu carregava os dois (ele e eu) ladeira acima.
Mas, ei!, pouco à frente, pela calçada e no contra-fluxo da corrida, vinha, animadíssimo, com uniforme patrocinado por restaurante e tudo, um risonho rapazinho com necessidades especiais, bastante parecido com o Guga, nos cabelos cacheados, na magreza e na capacidade de expressão verbal. Tentava dar high fives que os atletas olimpicamente desprezavam.
Como sou um homem acostumado à diversidade, compreensivo, tolerante e me comprazo com pessoas que encontram esses estímulos vitais para superar as mais cruéis dificuldades – e digo tudo isso sem um pingo de ironia – mas enfim, como sou bacaninha, ensaiei, desde longe, um atlético high five, com o qual não só incentivaria o rapaz, como também ganharia a ofegante admiração de meus pares: não só eu seria um cara batuta, mas ainda demonstraria a capacidade de levantar o braço, depois de tudo o que já corrêramos (estávamos, creio, na metade do terceiro quilômetro do percurso, que ia até nove).
Vaidade das vaidades, diz o Eclesiastes, vaidade das vaidades! Tudo é vaidade. A glória vã que eu já imaginava pela atitude de fair play, dependia do destino, da conjunção dos astros, da intervenção divina e, claro, da atenção daquele fatídico portador de necessidades especiais. Uma das necessidades especiais dele, descobri naquele instante, é manter a concentração, porque justo no momento em que me aproximava, ele se encantou com uma moça que saltitava à minha frente, baixou o braço e virou o rosto, encantado por aqueles movimentos glúteos de rara cadência.
Ainda tentei gritar, alguma coisa, mas o fôlego falto só permitiu um “oieuffff”, incapaz de reclamar a atenção do hiperativo rapagote. Não sei se pelo excesso de velocidade, ou se por absoluto descontrole muscular, mas decerto contra as minhas mais profundas convicções, a minha potente manopla direita, que já estava além de qualquer possibilidade de retorno, passou no vazio deixado pela mão do distraído deficiente e explodiu uma formidável bolacha naquele dentucíssimo perfil. Se ele já não entendia muito da vida, decerto contribui, com aquele desastrado cumprimento, para que ele ficasse um pouco mais desorientado, por pelo menos quinze minutos.
Tamanha foi a força do golpe, que eu cheguei a ver os voejantes cachinhos capilares e algumas babinhas brancas percorrerem em câmara lenta o céu de inverno, até que o rapaz desabou, acertando a guia do viaduto com a nádega direita, antes de rebotear e acabar esparramado no meio da pista, onde foi amparado por uma gordota suada que eu acabava de ultrapassar.
Todos os corredores à minha volta, talvez ensimesmados pela concentração inumana que a corrida exigia, talvez prestando atenção aos seus Polares e Garmins, talvez por força do notório desprezo paulistano, passaram sem um gesto qualquer – era como se nada tivesse acontecido.
Só a obesa atleta percebeu minha involuntária agressão – mas, o seu olhar através da franja e o brutal arfar de suas róseas bochechas, me disseram que eu já havia sido processado, julgado e condenado. E não por agressão culposa (o que abrigaria, segundo os cânones do Direito Civil, a imperícia do movimento do meu braço, a negligência do meu ombro cansado e a imprudência de minha alegria endorfinada). Naqueles olhos apertados eu via escrita a sentença: dolo.
Pareceu-me melhor retomar a corrida, e com mais eficiência: os paramédicos já cuidavam do abilolado rapaz e – posso jurar – ouvi os tênis da gorducha cantarem pneu na arrancada. Vinha, claro, no meu encalço. E com uma sede de vingança que nenhum dos três postos de hidratação, oportunamente alocados ao longo do percurso, seria capaz de arrefecer.
Percorremos os cinco quilômetros e meio faltantes numa média de velocidade que daria inveja a qualquer jamaicano na China. A minha rechonchuda perseguidora tinha uma capacidade pulmonar proporcional ao seu diâmetro. Quanto a mim, Virgílio já previa – o medo, aos pés, lhes empresta asas. Corri como o semi-homem Caco, com aquele adiposo Hércules feminino nos meus calcanhares. Quebrei todos os meus recordes (e, provavelmente, o osso do artelho médio do meu pé esquerdo).
Passamos pelo portal da chegada e eu, já pavlovianamente condicionado, apertei o stop do cronômetro e reduzi a marcha para uma saudável caminhada de desaquecimento. Só registrei que deveria ter continuado a correr quando senti dois braços fofinhos e curtos, mas fortes como os de um Tiranossauro Rex, agarrarem meus rins, meu fígado e meu baço e me levarem ao chão. A gordota, meu Deus.
Quando consegui me virar no asfalto e encarar minha algoz, só consegui dizer-lhe, apontando para o espantado cronômetro do meu pulso: “Quarenta e dois e vinte! Fizemos em quarenta e dois e vinte”! Ela removeu o cotovelo do meu esterno, desfez o punho e conferiu o próprio cronômetro. Empurrou-me com as duas mãos de volta para o chão e atarrachou, aos meus desprevenidos lábios, o beijo mais suado que já recebi em toda a minha atlética vida.
jul
Apostinha.
by mauro in Uncategorized
“Come, come, let us go to bed; I am more a child than thou art.”
Não é mentira que quando temos filhos nos infantilizamos. E creio que boa parte da má fama da família burguesa (sic) venha mesmo disso: o bom pai reduz o seu QI uns sessenta pontos, para acompanhar com genuína alegria, por exemplo, os gibis da Mônica. É sério. Quando eu era adulto não lia mais gibi: até Neil Gaiman me parecia bobinho, adolescentemente pedante. Hoje, que já perdi umas boas dúzias de pontos (basta acompanhar este blog, para constatar), tenho achado Huguinho, Zezinho e Luizinho quase karamazóvicos, de tão impenetráveis.
Mas há um turning point, parece. Há um momento em que seus filhos crescem e você vai amadurecedo junto, de novo, até que as coisas coincidam. Nos últimos dias, tracei em minutos The Prisoner of Zenda. Mui adultinho e complexo para quem dias atrás pulava as estorinhas mais compridas do Almanaque de Férias.
À noite, na beira da cama, também avançamos: já deixamos mais uns Roald Dahls para trás e estamos em plena Hong Kong, com o Phylleas Fogg e o Passepatourt. Difícil é explicar “charuto de ópio”, but what the heck, crescer tem um preço.
Depois, volto ao que de fato estou lendo sem parar há quase cinco dias. Que, ora, pode não ser lá grande coisa, mas o autor está quase tão bom como era há três décadas. E é o único livro com trailer que eu conheço. E não é para nenéns.
jul
mai
Desenho inteligente.
by mauro in Uncategorized
Sim, os pais fomos feitos para botar ordem na casa, para mandar fazer as coisas mais aborrecidas do Universo, para desligar o Wii, para tirar o cachorro da cama, para contrariar a fome e – de todas as coisas impossíveis – até o sono: mandar para a cama quando não se o tem; tirar da cama quando ele amortece todo o cerebelo.
E assim é, e assim será, porque é preciso reservar aos pais um pouco de não-amor, de modos que, quando eles faltarem – e faltaremos, fatalmente – ao menos um mínimo alívio há de ter o filhote.
abr
Matemática Estóica
by mauro in Uncategorized
Quem foi até os 70 anos, e viveu cada dia como se fosse o último, errou 99,9999609% das vezes.
abr
Quintas-feiras são assim.
by mauro in Uncategorized
Há quatro anos, eu saí de casa cedo e minha filha, de quatro anos, que eu levava para a escola, passou o caminho todo ganindo por um cachorro. Eu não queria um cachorro, e não queria a tal ponto que inaugurei um blog, para dizer: “eu não vou comprar cachorro nenhum”.Hoje, saí voando do escritório, encontrei a patroa e apresentamos a Mary P. às crianças.Tudo bem – era uma questão circunstancial, não de princípios. E sem cachorro, não há família. Só vale a pena ser um estereótipo, quando se o é por completo.

